terça-feira, setembro 01, 2009

Treze. Um acidente. (versão 2)


A caminho da noite. Acabaram por comer qualquer coisa em casa de Tomás – nothing fancy, uma coisa quase seca - antes de partirem para uma noite de tripop mas era mais um som à Lisa Gerrard o que levavam na alma. A caminho da noite, já na rua. Acabaram por se deter breves instantes num tipo que apresentava à beira-rio o seu espectáculo de robertos. Roberto, para dizer a verdade. O tipo suspendia-se de um boneco de uns bons três metros de altura, ao qual estava ligado por varas metálicas. Neste caso era o boneco quem ordenava todos os gestos. Quando entraram no Lux, iam já nas duas e tal da manhã e sem nada para decidir. Por momentos, os planos da noite foram absorvidos num vórtice de música e corpos de gajas desinteressantes. Parados à beira da pista, esforçavam-se por manter os olhos abertos. Como se estivessem demasiado bêbados. Demasiado velhos. Cansados daquilo. Cansados de gente a mais. Há uns anos, numa noite de férias quentes de Verão, ao fim da noite entraram num bar de karaoke que era coisa que abominavam e por isso mesmo entraram naquele bar de cantigas brasileiras com legendas e meninas a esforçar pronúncias de mau português. A sala teria uns cinquenta metros quadrados e todo o espaço era preenchido por carne fresca e meninas chegadas à praia das cidades de província de todo o país. Depois de meia hora a emborcar cerveja e fumar cigarro atrás de cigarro, o Tomás agarrou o André pelo braço e gritou-lhe: let´s torch this shit apart. What, fuck you. We’ gonna sing My Way. Vai-te foder mais o Sinatra. No sir, Sex Pistols. Joaquim estava entretido a um canto, com duas ou três gajas debaixo de olho e Jean, como sempre, meio perdido onde quer que estivesse. Quando Tomás chegou à cabine do DJ com o Andrés debaixo do braço levou muito tempo, mais do que queria, a explicar que era o Sid Vicious quem ele queria ver por detrás das letras do my way que iriam aparecer no LCD a meio da sala apinhada. Esperaram vinte minutos até que das colunas saiu um “E agora My Way por Tomás e André” (obviamente que o gajo nunca iria perceber o s, poucos percebem). Pegaram nos micros e caminharam displicentemente como faria Sid Vicious em direcção ao meio da sala pequena e Tomás começou lentamente com um tom que só os dez cigarros que entretanto fumou tornavam possível and now, the end is near… mas quando chegou a regreats I had a few já o Andrés amplificava o mau estado de coisas por cima do seu ombro direito, Tomás empolga-se dá uns passos à direita, volta-se, corre para Andrés e desliza até ele já de joelhos e entre grunhidos aqui e além – Joaquim está louco aos saltos agarrado a duas jovens meninas com saias tipo cinto o que lhes expõe as costuras dos collants – Tomás apenas vê vultos em volta, sombras que trepam pelas paredes e o pub é subitamente um lugar arejado e em breve expurgado dos males do mundo. Andrés está também de joelhos And did it my way. Metade da sala desaparecia quando são agarrados por dois tipos de calças muito justas pretas, botas da tropa, redes e t-shirts rasgadas, o cabelo em ripas verticais, a cara furada por pregos e alfinetes a gritarem-lhes aos ouvidos Pá, távamos a ver que nunca mais apareciam e o DJ, sem deixar acabar a parte instrumental anuncia ao microfone: e acabamos por esta noite, esperamos por vocês amanhã. Foi o primeiro bar da praia a fechar naquela noite – era umaevinte.
Mas isso foi há anos e essa era outra noite. A meio desta noite que já madrugava, Andrés foi contra um dos colegas lá da revista, um tipo baixo e rotundo, mais velho, que foi despejado na agenda e que se ocupava a chatear os jornalistas hora sim hora não com uma conferência de imprensa que estava para acontecer ou uma actriz promovida a estrela que tinha uma sessão de fotografias ou de autógrafos ou uma coisa do género. “Eia Andrés, por aqui?”, não, por ali, quis responder-lhe mas foi um “Eia” que lhe saiu e sem dar por isso já estava ouvir não sei o quê dos horários da revista e que estava a ser lixado com os subsídios e que era uma merda ter de trabalhar tardes e noites por causa não percebeu de o quê quando sem anúncios esofágicos aspergiu de alto a baixo com um vómito o funcionário que acabara de encontrar entre duas músicas lentas e chatas e que não levou a coisa a bem e fez um ensaio de que queria arrear-lhe mas Joaquim que estava por perto a rir às gargalhadas interpôs-se e arrancou dali para fora com Andrés por um braço enquanto fazia sinal a Jean e Tomás. E tudo o que eles eram estava resumido nesse momento. Uma náusea imensa pela vida. Pela vidinha.

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