quarta-feira, julho 01, 2009

O HOMEM

Quando eu era pequeno, vivia a minha vida entre gente viva, num café que pulsava a todas as horas do dia. Com ritmos diferentes, certo, se fosse manhã, tarde ou noite. Mas eram horas que me eram sempre familiares, a mim que reconhecia as nuances do dia sem olhar os ponteiros de 1 a 12. Conhecia o andar do dia pelas piadas que irrompiam pelo café porque era o senhor João que entrava, aquele que arranjava pneus onde eu me espojava como fazem os burros nos lagos de terra quando querem aliviar a comichão das costas na terra que foi a dos meus avós. Os pneus onde cheguei a adormecer por entre túneis que só eu parecia conhecer e onde qualquer outro se perderia sem a minha bússola. Ou quando entrava o senhor Mendes, a quem por respeito e despeito chamavam o Careca - também por falta de cabelo do frontal até à nuca - e tinha na juventude sido atleta do Benfica, campeão na bola, no hóquei, no atletismo e no ping-pong. O senhor Mendes tinha uma oficina de máquinas de escrever, logo ali quase de frente para o café. Perdi-me também entre teclados azert e imponentes máquinas Royal onde metia papéis mal prenchidos com palavras desalinhadas meio vermelhas meio pretas. O café não tinha clientes. Eram amigos que entravam e saíam. Às terças era dia de feira na cidade e era dia de os agricultores aparecerem com cestos vazios para um copinho, que eu constrangido julgava que transformavam o meu café numa tasca mas que estava tão tão enganado nessa repulsa momentânea. Num compartimento à parte havia matraquilhos e flippers e mais tarde os video-jogos que começaram com o Space Invaders, um compartimento de uns 15 metros quadrados onde passei muitas tardes e muitas noites com gente que é hoje importante no país mas que eram apenas uns miúdos que aproveitavam aquela casa de família. Todos os dias havia no ar um aroma a moelas e febras feitas com a mão certa e muito colorau. E os amigos que não eram clientes. Um estranho que contornasse de fora o edifício e entreouvisse de uma porta aberta as frases soltas que andavam no ar presumiria que se matavam ali, mas não, era antes o cada um a dar-se aos outros com tudo o que tinha. E eu estava aberto para receber tudo. Foi a minha primeira e mais importante escola. O café onde se viveram angústias pessoais, íntimas, onde havia lugar para a maledicência também. Houve destruição de carácteres mas sempre um ombro para amparar os caídos em desgraça. Como quando o senhor Alexandre, que tinha a lavandaria, apanhou Alzheimer, e todos sofremos com isso, ou quando o Careca morreu após anos de luta contra o cancro na garganta. De tudo. Gerações inteiras. Pais, filhos, netos, eram impossível que por ali não passassem. Ah; também me perdi entre as fronhas de clientes finos nos cestos de roupa da lavandaria, e claro que dormi umas boas cestas coberto de flanelas e calças por vincar enquanto a minha mãe se afadigava debaixo do Sol à minha procura. Esqueço-me do senhor Oliveira que tinha a papelaria, e que disse um dia que eu tinha pernas e coração de maratonista, mas ele não era homem de cafés, apenas porque não era. E eu também não me perdia entre as páginas dos livros que vendia. Mas lembro-me de um dia o meu pai, depois de eu colocar uma dúvida estranha acerca da língua, pegar em mim e entrarmos na Papelaria Camões: senhor Oliveira, dê-me um dicionário para o Paulo. Há gestos curtos que escrevem panegíricos inteiros. Obrigado pai. Quando há meses lhe peguei na mão enquanto morria e lhe sussurrei ao ouvido obrigado pai, obrigado por tudo, obrigado, obrigado pai, obrigado pai, obrigado foi também por isto. Por tudo isto. Porque ali, naquele café, o cimento de toda aquela gente e sempre a servir-nos a todos - o meu pai.

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar feedback [Atom]

<< Página inicial