quinta-feira, julho 02, 2009

Doze.

O QUE IMPELE JOAQUIM


Com um álbum antigo dos Gipsy Kings já a rodar ao melhor estilo vinil, a discussão haveria de se prolongar horas noite adentro. Era de sangue que se tratava e a decisão não iria ser tomada por quotas nem por voto de qualidade. Fosse como fosse, dessa noite todos haveriam de sair com as mãos vermelhas e o coração a carburar a extra-sístoles. Aquele filho da puta ia morrer a quatro mãos tomadas de um arco-íris de motivações. Os Gipsy Kings falavam de um amor atormentado quando o branco dos olhos tomou conta de Joaquim transmutado num anjo espectral. De costas para Andrés, Tomás e Jean Pierre, escondeu um sorriso que lhe arrepiou a pele até às mãos crispadas sobre si próprio. Toda a noite, enquanto disparava argumentos – departamento a que inevitavelmente regressaremos adiante uma e outra vez -, outra motivação o impelia a reunir o consenso sobre a morte do chefe que mal conhecia e de quem também ele apenas ouvira falar. Há muito tempo que deixara de contemplar a justiça dos homens e apenas acreditava na punição física, nas chagas da carne. No ajuste de sangue, mas isso também eles o sabiam, e toda a sucessão de acontecimentos dos últimos tempos apenas dava forma ao inevitável. Joaquim funcionava à base da lógica mais simples.

E ademais, nada era mais forte para aquele sanguíneo do que a oposição e o conflito, o que lhe gerava invariavelmente um visceral nojo pelo poder; a sobranceria, o despotismo e qualquer tipo de posição dominante deixavam-no nervoso e instável. Desde que o conhecem que lhe notam uma aversão às ideias de supremacia, que o levavam não raras vezes à má-criação e à violência. Acata mal ordens dadas de forma seca e isso era sempre meio caminho para reagir de acordo com o impulso primário que não consegue dominar. Por detrás de um coração que por vezes se enchia de desgraçados e pelos quais dava murros nas mesas estava um animal em estado puro. Por isso a perfeição que Joaquim velava daqueles últimos dias, uma perfeição capaz de conjugar num momento o universo que um homem como ele espera toda uma vida. Mas ele é paciente, fora paciente. Joaquim sabe que todos têm o seu lugar na cadeia alimentar. Por isso era paciente. E sabia mais: que um dia haveriam de estar debaixo da sua pata e que para isso acontecer um erro deveria ser cometido, e esse erro aconteceu. Mas (isto) nada disto poderia explicar-lhes. Joaquim disparava argumentos que não passavam de uma manobra e no seu cérebro desenhava-se já a bissectriz em que estas duas realidades se encontraram para consumar a sua obsessão: uma justiça de homens despidos de atavios judiciários e a ideia de matar. Sabia que no seu íntimo, no cerne da sua motivação, estava a ideia de matar por si só. O deslize do chefe de Jean Pierre era apenas o esqueleto do inevitável, uma ideia de somenos que, a seu tempo, e sem que ele o soubesse, era como se desde que nascera estava destinado a cometer. Apenas para que a cadeia alimentar se invertesse na lógica de Joaquim. Eles não o puderam ver, mas teriam adivinhado que seiva lhe ia nas carótidas infladas se vislumbrassem a sombra a encimar-lhe o esgar cinzento enquanto procurava um saca-rolhas no móvel atrás de si. O sangue e a morte formigaram-lhe já o corpo enquanto antecipava um homem a debater-se sob as suas mãos como um anho bíblico a esvair-se em contracções e golfadas vermelho escuras.

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