sexta-feira, junho 26, 2009

Sete.

ALEA JACTA EST


Estão sentados à mesa e arrancam para o jantar, Andrés e Tomás deixaram para trás o mau humor do final da tarde. Joaquim, que esteve por um segundo com o olhar fixado em nada, levantou-se, agarrou num garfo grande e uma colher à medida e começou a servi-los, até que os quatro pratos ficaram compostos num misto de gula portuguesa com a esquadria da nouvelle cuisine. “Vamos a isto”. Começaram a comer em silêncio, cada um remoía os seus medos e nem Joaquim parecia engolir com determinação. Tinha passado todos os sessenta minutos entre as seis e meia e as sete e meia da tarde na cozinha; raspou o caule de uma dúzia de espargos, retirou as extremidades rijas; lavou-os, cortou-os ao meio, cozeu-os em água a ferver; temperou-os com sal e escorreu a água; depois, numa frigideira quente, levou ao lume dois peitos de pato com a parte gorda virada para baixo e temperou o outro lado com sal e pimenta em grão acabada de moer; deixou a carne fritar dos dois lados, mas em lume vivo, para formar uma crosta e não deixar sair o sangue; retirou os peitos de pato ainda mal passados por dentro e cortou-os em fatias; levou a frigideira de novo ao lume, juntou grãos de pimenta verde, vinho do Porto – só um cálice – e água na mesma medida: deixou ferver enquanto raspava o fundo da frigideira com uma colher de pau. Por isso, acabava agora de os servir, generoso a regar a carne com molho, os pratos compostos com os espargos e decorados com grãos de pimenta e ramos de tomilho fresco. Joaquim comia mais brasas do que refeições quentes, mas era hábito começar assim a cozinhar essas outras delicatesses. Por sorte que, sendo assim, apenas uma conjuntura severa impediria Joaquim de mastigar e engolir com determinação. De repente, do nada:

- Vocês são cruéis. Vão matar um homem e não sabem porquê – sorriu, encostou-se para trás. – Nem querem saber. Vocês são cruéis. Tomás riu, Andrés também riu. Jean nem por isso.

Entretanto, o pato era degustado com total gratidão para com os trêmileseiscentos segundos contados a passos curtos de lá para cá na cozinha ali do lado. Os mililitros disto a ganharem luz nuns gramas daquilo, tudo era sopesado pelo palato dos convivas. Como sempre, era um jantar que se passeava goela abaixo com as boas graças de restos de Cabernet Sauvignon e Sagres Preta saído da prateleira de cima do frigorífico.

Já com os pratos quase limpos e com uma espécie de mancha de Rorschac desenhadas a molho de Porto, Andrés pousou os talheres e voltou-se para Joaquim. – Talvez queiras dizer-nos porquê. Imagina que vamos matar esse gajo, porque é que é que vamos de férias. Que porra é que vamos fazer para Isla Cristina.

- Não é Isla Cristina, é Isla Antilla, e não, eu não – disse Joaquim a sorrir. – O Tomás vai contar-vos tudo.

- Eu? – Tomás endireitou-se.

- Claro – assinalou Joaquim, impassível – Alea jacta est. Não és tu o assessor do senhor vereador do comércio? Tu, my friend, sabes tudo.

Tomás levantou-se e apontou-lhe o dedo: Ah não, isso não senhor Joaquim. Sem o querer ficou branco e a luz subiu-lhe ao rosto por debaixo com um esgar, os olhos escuros. - Até imagino que este seja um projecto viável, mas não me ponhas na ponte de comando. E uma súbita e inusitada tensão desceu sobre a sala.

- Vocês pensam que eu estou a brincar. - De uma vez Joaquim levantou-se e gritou aos céus - Por que não nos explicas o que é esse programa que está para arrancar da supressão selectiva de trabalhadores. E de súbito, só para Tomás, de súbito ganhava sentido o texto lido à pressa já com o casaco no antebraço. Suprimir. Extinguir. Não os postos de trabalho mas os trabalhadores. Não era um erro de maçarico encantado com palavras. Era um programa que estava para arrancar.
“E o mecanismo da coisa vai ser posto em experiência na empresa do Jean”, declarou Joaquim perante Tomás, lívido, incrédulo. E Jean Pierre, que se levantara, deixou-se cair no sofá branco sujo, a acenar que sim com a cabeça.

- Mas como? – interroga Andrés, que se esforçava por contemplar o futuro da administração.

- Com snipers, Andrés, sei lá - atira Joaquim – É absurdo.

Tomás levantou-se, andou até ao fundo da sala, voltou-se: E nós com isso?

Às 10 e vinteesete tocou o telemóvel de Jean Pierre. Era o tipo que iam matar.

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