sexta-feira, junho 26, 2009

Seis.

JOAQUIM CHUTA DÚVIDAS PARA CANTO


- Foda-se. Ouve, vai lá buscar uma preta. Estou farto do vinho, está a adormecer-me.

- Excelent – Joaquim levantou-se de um salto. – Não quero ninguém a dormir. Quatro pretas bem fresquinhas.

Ninguém disse “não”. Nunca ali ninguém dizia que não a uma cerveja preta. Mesmo com um homem que estava para morrer. E que no coração grande mas cru de Joaquim já estava morto. Quando chegou com as cervejas na mão vinha com outras ideias.

- E se fôssemos de férias.

Estávamos em Abril. Ninguém vai de férias em Abril. Não interessa o ano. Ninguém vai de férias em Abril. Aquilo foram palavras que chicotearam o ar. Férias? Nah. Mas ele repetiu – Vamos de férias. Temos de pensar. Muito para pensar. E esboçou um sorriso sinistro, um esgar que lhe cortava a boca num traço oblíquo. A olhá-los assim, a sala quase gelou na noite quente e os corações aceleraram num vórtice que tragava todas as resistências. Que se dane, vamos de férias. Era isto Joaquim. Implacável. Por assim o ouvirem falar, sem saberem porquê, Andrés e Tomás perceberam que a sua vida morna e indiferente poderia agora transformar-se numa jornada um tanto diferente e nem os olhos de Jean Pierre os impediam de assentir aos desejos de Joaquim. - Jean, o que é que o tipo te fez? – perguntou Andrés, desinteressado na resposta e ainda a tentar apalpar a ideia de tomar a vida de um homem com as suas próprias mãos.

Jean Pierre, sentado no sofá, enterrado com a cabeça nos joelhos, não respondeu, nada disse, apenas levantou as mãos com as palmas para cima. Joaquim e Tomás estavam parados, no meio da sala. Joaquim não desfazia o sorriso. Iam matar um tipo qualquer. Ou não: iam matar um homem. A ideia não deixava de ser surpreendente, até mesmo para o implacável Joaquim.

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