quinta-feira, julho 02, 2009

Onze.

Tomás toca a reunir.


No sábado a segui àquela quarta-feira pouco promissora Tomás telefonou aos amigos e pediu-lhes para aparecerem lá em casa. A meio da tarde estavam todos reunidos no sexto andar de uma zona boa da cidade. Com ar descontraído, Joaquim atirou para cima da mesa que teve de aviar uma miúda à pressa, o que lhe valeu, não pelo acto mas pelas palavras que escolheu – como invariavelmente escolhia para essa situação -, a reprovação de três pares de olhos. “O que foi, então, o que é que eu disse”, deu um golo na mini gelada que segurava com displicência entre o indicador e o dedo médio. Bem, arrancou Tomás, a questão é esta:

(Levantou-se.) Andou até ao fundo da sala, respirou fundo, voltou-se e disse isto: “Ele vai morrer. Devemos decidir como”. Tomás esticou o beiço inferior, enrugou o cenho e concordou – Por mim tudo bem.

“Nestes dois dias fiz umas pesquisas. A ideia não é nova. Já foi posta em prática em inúmeras ocasiões. Umas vezes a encoberto, outras de forma mais explícita – abriu os braços num geto curto com as palmas das mãos para cima - Há autorizações ao nível Executivo para iniciar a eliminação selectiva de trabalhadores. (Mas o que é que estás para aí a dizer… ao nível executivo, eliminação selectiva – Andrés recorda-se do sonho que tivera e começava a pensar que tudo encaixava bem demais quando foi atalhado por Joaquim: ouve, porra, ouve.)

“Ora bem, a medida não é ainda oficial, mas os patrões da indústria preparam-se para dispensar trabalhadores através da eliminação… (Mas que eliminação, não estamos na Palestina. O que queres dizer com eliminação – insiste Andrés. - Ouve, porra – nesta altura Joaquim agarrou-lhe o braço e Andrés sacudiu-lhe a mão “Então”.)

“As coisas não estão fáceis para a economia da cidade. Parece estar decidido que o ciclo dispensa, desemprego e subsídio, ou reforma, não vai equilibrar as coisas. Sem grandes explicações, a solução final para a situação é a pura eliminação de trabalhadores.

- Mas como?
- Com snipers, Andrés, sei lá.
- E o Jean Pierre…
- Fez o que não se faz perante os senhores da guerra: disse não, desobediência marcial – respondeu o firme Joaquim, a sorrir, já com uma mão orgulhosa sobre o ombro de Jean. – Disse que não quando o senhor director-geral o pôs à frente da primeira comissão de avaliação para os dispensáveis, ou seja, a comandar o primeiro pelotão de fuzilamento.
- Comissão dos dispensáveis?
- O André devia chefiar a primeira experiência de dispensas com vista à eliminação de trabalhadores. Uma coisa quase informal com uma quota de cinquenta funcionários do seu próprio departamento, lá nos Recursos Humanos.
- Vocês estão a brincar comigo – disse Andrés a rir mas aparentando estar mais preocupado por Tomás ter trocado as Sagres pretas por minis. – Vão apanhar onde… é como daquela vez em que convencemos o Tomás de que…
- Podes parar – disse Joaquim. – Ninguém está a brincar contigo. Ninguém está a brincar, acredita. Tomás, explica-lho bem explicado.

Tomás andava há dois dias com aquele papel no bolso de trás esquerdo. Retirou-o com alguma cerimónia e desembrulhou-o, endireitou os vincos, olhou em particular para Andrés, a última resistência ao apelo vital.

“Isto veio-me parar às mãos num mail a que não dei qualquer importância apesar de o ter imprimido e guardado. Pensei de início que era uma daquelas brincadeiras que acabam com música de flautas de pan para elevadores.

(Começou a ler.)
“O conteúdo deste documento deve ser remetido apenas no interior das altas esferas. Sabemos da situação que vivemos actualmente e da agonia em que entrarão as nossas estruturas económico-sociais caso fiquemos de braços cruzados. À primeira vista, a medida que agora introduzimos para vossa apreciação poderá parecer excessiva mas verão como os tempos exigem austeridade e uma firmeza espartana. Trata-se na verdade de uma medida prioritária para a manutenção da espécie. Sabemos que mesmo entre nós iremos enfrentar resistências e que há quem julgue para já ser incapaz de coabitar com esta ideia mas, creiam, trata-se da solução derradeira: é urgente eliminar os indivíduos excedentários. Nesta altura já os conselhos se reúnem hora a hora para tomar o pulso da situação. As grandes corporações registam actualmente prejuízos que colocam em risco toda a nossa estrutura empresarial, pelo que não devemos ser contemplativos nem, em nome da própria existência, descartar uma acção desta envergadura. O crédito, como sabem, está congelado e a única forma de equilibrar a contabilidade é a diminuição das despesas com funcionários. Não se iludam, este plano que será posto em breve no terreno na nossa cidade serve também para testar a expansão a todo o território nacional e quem sabe se não será para exportar. Acreditem que a gravidade da situação nos levou a ponderar abranger também trabalhadores qualificados, no entanto, colocou-se desde logo um problema: apesar de sorverem individualmente uma parte substancial dos recursos em salários são contudo em número muito reduzido e pouco fariam mexer a equação global. Ademais, dificilmente seriam tão domáveis como o proletariado e o funcionalismo de base. A decisão do colégio dos conselhos empresariais foi unânime na decisão do conselho dos conselhos. Por outro lado, ao contemplar o despedimento simples como solução, logo saltou para a equação o problema de milhares de desempregados a andar pelas ruas e o caos social latente, em particular para a vida dos cidadãos que manteriam vidas regulares. É portanto, ao contrário da doutrina imposta noutras épocas de crise, não de uma mera eliminação de custos nos livros da contabilidade das empresas, mas a sua pura eliminação da arquitectura social: a eliminação física. A ideia partiu do agora regedor do departamento da limpeza municipal. Devemos comunicar que este homem apresentou os princípios de todo um plano num dos conselhos e rapidamente a ideia se propagou a toda a rede empresarial do município. Se foi recebida nos primeiros momentos com relutância e por que não dizê-lo com nojo, após um silêncio moralmente envergonhado, o pouco que aquele homem disse, pouco havia a dizer, era da sobrevivência da estrutura que tratava, rapidamente e de forma súbita ganhou adeptos entre os membros superiores do colégio empresarial, que como sabem tem o assentimento intrínseco das estruturas políticas da cidade. Uma última palavra: meus amigos, o que pretendemos é parar esta sangria na nossa economia, não apenas transferi-la de estrutura para estrutura como uma gangrena itinerante que continuaria a secar os nossos livros de contabilidade, de forma indirecta através da taxação mas igualmente letal. Quem mantém o Orçamento do município? Nós. Cortando nos gastos com pessoal, o pessoal deixará de ser nosso mas continuará a necessitar de subsistir e quem passará a pagar pela sua subsistência? O município. Aí têm, meus amigos, o município que nós financiamos. Cordialmente vosso em nome do colégio superior.

(Tomás prossegue após um gole na mini.)
“Há depois uma adenda em que se refere que o plano deverá ser afinado nos seus pormenores mais sórdidos. Não seria a ausência destes homens e mulheres sentida pelos amigos e famílias? Inevitavelmente, no entanto, como em tudo, não era essa a preocupação das corporações mas antes justificar de forma crível os seus desaparecimentos. Porém, para tudo há uma solução: primeiro, o processo deveria ser levado a cabo apenas nas instalações durante um período de trabalho contínuo que exigiria dos empregados que se mantivessem nas empresas – sob um qualquer pretexto – e, depois, por exemplo, seria publicitado um falso seminário fora da cidade e durante o qual um acidente qualquer custaria a vida a centenas de trabalhadores numa tragédia que provocaria inevitavelmente uma profunda consternação em todos e cada um dos cidadãos. E por que não avançar logo com a ideia do acidente e fazer tudo de uma vez? Ahaa, porque nos acidentes há sempre danos colaterais e nós não queremos que seja eliminado alguma peça-chave da estrutura produtiva. É fundamental perceber – ditava já um memorando para os teus olhos apenas - que isto não é um processo de sangria pura e dura, antes um intervenção cirúrgica bem delineada. Aí têm”.

Andrés desenhou um arco com os lábios e perguntou. Retoricamente, perguntou: E foi um adulto que escreveu isso? Joaquim ria quase em silêncio mas era traído pelo cenho oblíquo e a bissectriz apertada dos olhos. Andrés, Tomás e Jean Pierre estavam tomados por uma expressão vaga, abandonados cada um à sua sorte.

- Aí têm. Vocês vão fazê-lo pelos desgraçadinhos e eu vou fazê-lo pelo Jean – disparou Joaquim.

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