quarta-feira, julho 01, 2009

Dez.

O POUCO QUE FAZER DE JEAN PIERRE


Até que partissem para Espanha, Jean Pierre tentava manter o cérebro ocupado com ninharias, procurando exorcizar aquela ideia de ter de matar um homem. Com pouco para fazer, passava os fins de tarde desinteressado, com todo o tempo do mundo mas sem qualquer interesse em fazer render as horas. Todas as coisas que antes lhe provocavam assombros, as exposições ali ao lado, tardes de livraria e engates de meia tigela a meio da tarde, eram uma ideia estrangeira no território que agora pisava, onde o tempo parecia não passar; os silêncios pesavam-lhe pela casa. Do quarto para a sala, da sala para a cozinha e depois para o pequeno escritório ao fundo do corredor e a seguir a varanda virada para nada. Toda aquela agitação da urbe que sempre o empolgara ali debaixo dos olhos mas ele com as mãos cravadas no mármore malhado da varanda, tudo era agora um esboço de vida, uma folha cheia de traços aguarelados por vezes outras um quadro pastiche mas empastelado a cinzentos, uma coisa parda em que os olhos agonizavam. Como se a vida tivesse parado só para ele. “Que estranha, esta sensação de ainda pertencer ao Mundo”. Era aquele sonho antigo, quando tinha sete anos, noite após noite arrastava-se por caminhos ermos de neve e veredas que levavam a lado nenhum com todo o planeta a perder de vista. A perder de vista, branco e inabitado. E noite após noite Jean arrastava-se rumo ao nada, sem esperança de encontrar vivalma. Como um oráculo que se cumpria décadas depois, eram agora assim os seus dias. Como aquelas noites que o atormentaram aos sete anos. Uma angústia surda da qual não valia a pena gritar – porque apenas ele estava por perto.

Estava numa dessas tardes, com a televisão aos pés, quando lhe surgiu a ideia de escrever uma história. Coisa que não fazia há anos. Era assim a ideia da narrativa: falidas todas as tentativas de controlo social através da reclusão, haviam-se juntado os altos legisladores do planeta para decidir outras formas de penalização. A história pressupunha tempos de revolta – uma nova era em que a tomada de consciência colectiva de uma indigência culta empurrada para as ruas e para os subúrbios fomentava movimentos à escala mundial. Os grandes líderes haviam decidido endurecer a lei com medidas draconianas. Apenas horas após o início da cimeira que reuniu os líderes do planeta, a decisão deixara perplexas até as alas mais radicais do planeta. Ficara assente a criação de laboratórios onde se manteria a cultura de doenças à época erradicadas, para as quais se conhecia o tratamento mas não a cura. Deveriam por isso ser erguidas instalações de alta segurança para manter vírus e bactérias da pior espécie e aos revoltosos seria aplicada a inoculação como medida dissuasora – a pena de morte pouco continha do horror e do sofrimento instigado pela nova lei.

Jean Pierre estava no início do guião, quando se preparava para acrescentar como as organizações de rua procuravam o assalto a esses complexos para se apoderarem de um ou dois vírus, quando tocou a campainha. A vizinha de frente, uma velhota simpática, estava a fazer mousse de chocolate e faltava-lhe açúcar. Afinal faltava-lhe mais. Insistiu – daquela forma negligente de quem não consegue pedir – para que Jean Pierre a ajudasse a medir um quarto de litro de leite. Porque os olhos já não ajudavam. Porque os óculos estavam perdidos algures entre o quarto e a sala. Jean não pôde deixar de aceder. Aceder. Deixar-se ir. Como quem vai carregar um peso por cinco minutos e põe o cronómetro a trabalhar. Mas talvez nada disso fosse assim. Talvez cinco minutos fossem uma encruzilhada da vida com um destino mal amanhado. Nada de mais, era essa afinal a sua especialidade. Deixar-se ir. A chave rodou duas vezes na mão da velha senhora, que na sua mania de velha, apesar de a viagem até ao apartamento do vizinho Jean exigir apenas o arrastar dos chinelos por um corredor de quatro metros, não pôde deixar de dar duas vezes à chave como se fosse ao minimercado da esquina ou tomar chá com as amigas ao café da ali em baixo. Quando a seguiu para a penumbra do apartamento, de imediato uma angústia se apoderou de Jean Pierre. A solidão alojara-se em cada canto do exíguo apartamento onde os móveis se encostavam contra as paredes para poderem respirar. Poucos centímetros após a porta e já ele estava a andar de lado para ultrapassar cadeiras e mesas e sofás e cadeiras e mesinhas e evitar pontapear pés de mesas retorcidos em cornucópias sólidas e de arestas agressivas. A cada passo que dava, Jean Pierre respirava a resignação. Uma vida de devota levada com terços à tardinha e missas ao alvor dos domingos. Toda uma existência dedicada ao velho capitão de infantaria de bigodes resolutos e cujos olhos continuavam a impor sentido a partir das dezenas de pequenas e maiores fotografias que ora dependiam das paredes ora estavam obliquas à madeira escurecida do móvel em que assentavam. Da parede ou do mobiliário, sempre aquele semiperfil em que inchava o peito numa atitude intimidatória, a dar crédito à possibilidade de um dia os lábios se abrirem num berro de huno nos campos de batalha. Huno ou outra estirpe qualquer. Entre a sala e a cozinha era ainda um homem duro que submetia a velha senhora a conquistar-lhe humores com monossílabos puros e recatados que ainda tinham sucedâneo em miradas de viés e evocações quase laudatórias “Ah, o meu marido, era capitão sabe”. Afinal, talvez nada lhe tivesse faltado. “Se me encontrasse os óculos é que me fazia um grande favor”, disse como se de facto não estivesse a dizer nada. Vista de onde o Jean Pierre se encontrava, o queixo tremia-lhe no fim da cara, um desenho de quarto decrescente. Um pedaço de lua decrépita a apontar para nada. Uma cara curvada pela ausência da prótese dentária que esquecera atrás de um bibelot qualquer. Curvada, triste, talvez não. Engelhada por anos de cismas. Por anos de morte lenta.

Jean Pierre ajudou-a com o leite e começou a sentir-se esgotado. Cinco minutos. Nada fazia sentido. Aquela velhota existia mas nada fazia sentido. A situação atordoava-lhe a razão. A casa. Jean Pierre não podia estar a pisar os esconsos da existência. Que limiar acabara de atravessar não o sabia e estava cansado, esgotado. Enquanto passava o hall e entrava em casa sentiu o peso de uma névoa cinzenta nos ombros. Os olhos fechavam-se, por força do que se deixou cair no sofá de pele cor de champanhe. Acordou muitas horas depois com imagens do liceu frente a culturas de bolor nas aulas de biologia. Ah!, a história dos novos regimentos do mundo. Tinha os olhos vermelhos e colados; dormira com as lentes de contacto, mas não o sabia ainda. Quando pôs os óculos deixou de ver – estava confuso. “Quem raios é afinal a velha viúva do capitão de cavalaria?” Sentado em casa, enquanto contemplava as suas misérias, os olhos embaciados entre o jarro de porcelana na prateleira de cima na cristaleira da cozinha e para a qual tinha perfeito ângulo de visão desde o sofá da sala. Tinha dúvidas. Há anos que não tinha dúvidas mas nessa noite estava cheio de dúvidas. Os olhos tremiam-lhe e transformavam a sala numa aguarela. Não eram dúvidas – era só angústia. Chorava? Quase. Limitava-se a um lacrimejar ténue, não mais do que isso. Evitava fechar os olhos para que a vida não lhe passasse como um filme e, debilitados como estava, vagueava sem rumo entre os canais da televisão. Hesitava entre o choro num programa com música de Satie e masturbar-se nos canais para adultos. Tudo para Jean era naquela noite como fora sempre a sua vida, uma hesitação entre fraquezas, sobretudo um medo terrível de querer de facto empenhar-se em fazer alguma coisa. Uma claustrofobia lancinante prendia-o ao sofá com os olhos a vaguearem entre os armários da cozinha e restos do prédio em frente que assomavam numas aberturas da varanda. Lá fora, outrora refúgio de fins de tarde, o pátio que da varanda via à distância começava a desaparecer. Bocados de ferro forjado a bordejar cimento nu e alicerces de betão armado de onde despontavam pontas do metal a prometer novas filas de apartamentos escondiam-lhe fins de tarde a ver o jardim e as peladinhas até ao Sol se pôr. Tudo isso acaba-se e passou a voltar-se para a casa. Sintonizou um canal de HOTBABES e desapertou as calças.

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