segunda-feira, junho 22, 2009

Cinco.

A MORTE SERVIDA EM VISTA ALEGRE DE REFUGO


- Vou buscar o resto das coisas – disse Joaquim, mas quando ia a passar pela porta, Andrés agarrou-o por um braço: Ouve lá, o que é que se passa? É verdade, queres mesmo matar um gajo?

- É, e vamos fazê-lo todos – respondeu, quase indiferente. – Vem ajudar-me. Depois falamos.

Jean Pierre começou a fazer uns barulhos estranhos, como se estivesse a ter um ataque de asma, mas na alma. Eles eram um grupo de quatro tipos indiferentes que não aspirava a assumir as rédeas da urbe; que manifestavam total inabilidade para se envolverem no andamento da engrenagem; aquele tipo de pessoas a quem não era arrancado nada além do indispensável, pelo que este intróito que anunciava decisões graves parecia estar de facto a perturbar Jean Pierre.

- Ouve – disse-lhe Joaquim – é escusado ficares assim. Andrés, põe qualquer coisa a tocar. Olha, tens aí o último dos Massive.

Um aroma agradável passeava-se entre a cozinha e a sala. Como se o mundo estivesse como nunca esteve, perfeitamente “nos seus carris”. Tomás pegou nos talheres e nuns copos ocos que levavam o líquido pelo pé abaixo enquanto Joaquim agarrava em duas travessas com peito de pato à pimenta e completava o malabarismo com uma terrina de metal mas com salada de pimentos acabada de sair do frigorífico. - Já levas o vinho? – Tomás deixou sair um som que sim. Durante a refeição, Joaquim manteria o à-vontade de uma conversa normal. Sobre matar um homem não iria ser pronunciada uma única palavra que o cheuf impusera esse voto de silêncio sobre o prato principal.

Eram 10 e vinteesete, tocou o telemóvel de Jean Pierre.

- Oh merde, é do escritório.

- Não atendes – gritou-lhe Joaquim – dá-me essa merda.

Jean Pierre levantou-se: Vou atender.

- Foda-se, não atendes coisa nenhuma – ordenou-lhe Joaquim com os olhos a sublinhar o “não atendes coisa nenhuma”. Jean Pierre continuava a olhar para o visor verde. O telemóvel calou-se. Era ele, tenho a certeza.

- Ele quem – perguntou André.

- O gajo que ele quer matar – fez uma pausa muito curta. – O meu chefe.

Ainda mal se refizera o silêncio; ainda os olhos se voltavam para Joaquim para depois se perderem pela sala comprida, pousando no sofá, levantados para o fundo à direita, para a mesa rectangular e baixa com rodas e a televisão por cima; ainda eles procuravam luz que já não havia na janela na parede oposta com prateleiras e livros e plantas – as plantas de Joaquim – por cima; quando Joaquim, depois de engolir um pouco de cerveja, sentenciava com a singeleza dos justos na voz:
- Ele vai morrer. Vai morrer e nós vamos fazê-lo. Os quatro.

Andrés, com Cabernet Sauvignon a injectar as válvulas internas, começou a rir em gargalhadas soluçantes, abafando uma canção dos Gus Gus que saía da Voxx.

E nós vamos fazê-lo. Os quatro. Mais do que “vai morrer”, foram aquelas palavras que vibraram nos pratos ainda vazios naquela quarta-feira quente de finais de Abril. E nós vamos fazê-lo. Todos. Mas Andrés ainda não se havia apercebido de como aquelas palavras mudariam tudo.

- Ouve – começou – eu não estava nada bem disposto. Andei mal a tarde toda. – riu-se – Bem, o que eu não sabia era que ia sair hoje daqui um assassino em potência. Assassino de um gajo que não conheço e de quem só ouvi falar.

- Só isso já deveria ser mais do que suficiente – atirou-lhe Joaquim. – Já esqueceste todas as histórias do Jean Pierre. Lembras-te daquele sórdido episódio da caneta? – virou-se para Jean Pierre – contaste-lhe, não?

- Sim, contei – respondeu, quase indiferente. – Então? – Joaquim volta à carga – Ouve man, conta-lhes o que se está a passar.

- Foda-se – Jean Pierre estava em total ausência de sintonia, definitivamente estava mal. Quando o polido do franciu dizia “foda-se” a questão tornava-se séria, o que lhes ficava totalmente fora de mão. – Vou buscar uma preta. Estou farto do vinho, está a adormecer-me.

Quem é Jean Pierre? O melhor de todos eles. Era assim que o tinham os outros três. Um filho de franceses que se perderam um dia pela capital. Jean Pierre era o melhor de todos eles. Bom demais, nas palavras de Joaquim, que se revoltava contra os brandos. Sim, Jean Pierre era o melhor de todos eles. Há dois anos, Dezembro, mudou-se de casa. Enquanto arrumava as coisas em caixas de cartão decidiu que tinha roupa a mais. Roupa e sapatos. Um terço das coisas saltou dos roupeiros e foi parar a um saco de plástico gigante e negro. Um dia apareceu em casa do Andrés para um dos jantares de quarta-feira com o saco às costas, virou-se para eles com o sorriso fino como ele tem, abriu os braços e disse: É tudo vosso. Vou entrar para os franciscanos, não me quiseram nas carmelitas descalças. Tomás sacou uns Nike Waffle azuis com a lista em amarelo. Já antigos. Nike a sério que já não se fazem. Andrés e Joaquim tiraram cara ou coroa por uns Hush & Pupies quase por usar. Coroa para o Andrés mas acabou por ser Joaquim a ficar com eles, não se sabe bem porquê. O Joaquim tinha aquela terrível qualidade que por vezes os levava a perguntarem-se se ele seria realmente o grande amigo que eles acreditavam que ele era. Dúvidas que ele afastava com os gestos largos de que só ele era capaz, como quem afasta o fumo de cigarros. Mas ficava lá, apesar de tudo, aquela mazela, uma sombra que o seguia e que eles sabiam ser vital para o não-condescendente Joaquim; o amigo que por eles saltaria a terreiro com a própria vida; o imprevisível Joaquim, o irascível, o quase selvagem que por feitio os trazia debaixo das suas asas. E Jean Pierre, o brando? Nessa mesma noite de início de Dezembro, pôs o saco às costas e desafiou os amigos a fazerem de Pai Natal antes do jantar ser servido. Andrés foi com ele. Cinco minutos depois chegavam a um beco escuro, à beira das linhas dos comboios que acabavam em Entrecampos. Saiu do carro à pressa, deu uma pequena corrida, desapareceu no retrovisor e voltou a aparecer com a mesma rapidez, como se o saco encerrasse um corpo e tivesse acabado de o lançar a um rio a coberto da escuridão. Entrou no carro e de cabeça baixa disse Vamos sem se voltar. Quase imperceptível, disse só: Vamos. Andrés interrogou-o. Numa altura em que Jean queria que tudo corresse como nos filmes, sem diálogo, dois amigos, uma mão no ombro e o carro a arrancar, sem diálogo até ao destino, Andrés perguntou: Já está? O saco? Foste rápido. Ele tentou não responder, mas Andrés insistiu.

- Já está? Falaste com ele?

Quis não responder mas o carro não arrancava. – Com ele, quem?

- Entregaste o saco a alguém. O que é que te disse? Ficou contente? Agradeceu-te.

Era responder. Mesmo com a voz que não saía, era responder ou dar-lhe um berro e Jean Pierre sabia que não iria dar-lhe um berro. As explosões eram incompatíveis com o seu hardware. Joaquim iria dizer-lhe isso mesmo, nestas palavras, nessa noite em que decidiam matar um homem: Jean, tu és demasiado brando. Ainda te vão tirar tudo. Por isso voltou a perguntar:

- Mas quem?

- O tipo a quem entregaste o saco. O que é que ele te disse?

- Não disse nada – continuava a olhar em frente e a falar baixo, a voz embargada, com o cabelo louro e liso, ligeiramente comprido, tombado para a frente.

Andrés continua a metralhá-lo contra o Muro das Lamentações onde encostava a cabeça: Tu dás-lhe aquilo tudo e o gajo nem te agradece? – Jean Pierre sentiu que os olhos humedeciam.

- Eu não me encontrei com ninguém.

- Mas porquê? Não estava? – o carro começou a andar e a tortura tornou-se mais suportável.

- Não, não sei, talvez, acho que não. Ouve – já não suportava mais aquilo - não tive coragem de falar com ele.

André começou a rir-se. – O quê, não tiveste coragem de quê?

- De ir lá. De o obrigar a agradecer-me. Tive medo de poder estar a dizer-lhe que eu sou tão bom; que tenho o direito de lhe oferecer coisas e de em troca o obrigar a agradecer-me por isso.

Andrés já tinha parado de rir. – Por isso, deixaste-lhe o saco à porta, foi isso?

- Foi – não lhe saiu bem, foi mais um “oi” a passar-lhe entre as traves do coração.

Continuaram a rodar, agora com Andrés a cerrar os lábios entre os dentes. Antes de saírem do carro, pôs-lhe a mão no ombro, como se faz nos filmes, e disse-lhe: Tu és bom.

Jean Pierre era assim: bom. Tudo o resto é acessório, como o cargo de director de Recursos Humanos numa empresa pública.

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