sexta-feira, janeiro 02, 2004

Quinze.


Não sou mau. Não sou bom. Os cães sabem o seu lugar.



"Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias dos anjos?"

Rainer Marie Rilke



Recordo-me desde os verdes anos ser o espelho para mim um objecto estranho onde por vezes me confrontava raramente me reconhecendo. Tudo começava sempre com o encontro furtivo, a fatalidade da pequena pausa, meia dúzia de esgares, a pose séria por alguns segundos e o abandono da imagem. Geralmente voltava atrás. Procurava encontrar-me no que me via; queria abraçar aquele que me olhava como se fosse eu; mas era sempre um estranho que me voltava as costas e o que persistia era a consciência de que eu não existia como corpo, como carne. Mas agora era obrigado a reconhecer aquilo que não podia deixar de ser. Era irónico e eu detesto a ironia.

Eu sou nada. O espelho dizia-me tudo o que eu não queria ver. A culpa era definitivamente esquecida. Eu sou nada e até a culpa me abandona. Nada. Ando às voltas num hedonismo primário. No meu cérebro não havia espaço para a moral. Tudo seria reclamado pelos oitenta quilos que diariamente me representavam.

Em frente à net eu continuava a adiar o futuro. Sempre sem gritar. Sem espernear. Liguei a televisão. Em Madrid estavam 23º às 15 horas, com céu limpo. Em Dublin 11, em Copenhaga 11 e em Atenas 30. Muito nublado, neblina e limpo, respectivamente. Tudo servia os meus propósitos. Não que isso fosse absolutamente essencial para mim. Eu era um indiferente por natureza. Acredito que ainda posso voltar a sê-lo, mesmo depois daquilo por que passei. De outra forma, digo-o agora, como teria aguentado tudo aquilo? De qualquer forma, é difícil ferirem-me de morte. As coisas têm a importância que têm. Dificilmente a importância que lhes atribuem. Preocupo-me, de facto, mas com os meus pais; de alguma forma, a mácula que caíra sobre mim não era minha, posso garantir-vos, era deles e por isso me pesava tanto.

Não, não era minha. Eu tinha de livrar-me daquilo por eles. Eu merecia-o, porventura. Eles não. De onde fala? O meu anjo da guarda está? Diga-lhe que o Andrés telefonou, obrigado.

Estava farto da luz escura da casa. Da fuga que me afastava da vida. Como se fosse um condenado. Farto. Sentia falta do aborrecimento das ruas. Das pessoas que nada tinham para me dizer. Do banal. Das coisas que me provocavam o riso e só a mim. Estava farto de me esconder.

Nesses últimos dias tinha fechado as persianas ao tempo e corrido os cortinados para criar uma noite artificial interminável. Manipulei o tempo o quanto pude mas no fim-de-semana, no sábado logo cedo, deixei-o entrar por todas as janelas. Olhei-me uma última vez no espelho e tomei a decisão adiada e que tanto me custou tomar. Peguei no caderno com as fotografias e os relatórios diários, fotocopiei-os, liguei o faxe e enviei-os ao Pol. Provavelmente iria pensar que se tratava de uma brincadeira; poderia discutir com ele as possibilidades de um caso assim, sem expor o problema como meu. Marquei o número de casa dele para evitar que a secretária do consultório pusesse as mãos nas fotografias e anotei na última página que não estaria em casa durante todo o fim-de-semana. Depois, despi-me e fui tomar banho. Um banho quente cura tudo. Quase tudo. Estava mesmo mal.

O CD deslizava no Aiwa mas o som não me satisfazia. Procurei a cópia de vinil e pú-la a rodar no Technics ligado à Sony e mudei os fios para o amplificador fabricado por medida por um amigo que era um "mãozinhas". Há uns anos prometeu-me uma coisa de válvulas à maneira e poucas semanas depois bateu-me à porta com um caixote onde eu pensei que trouxesse um frigorífico. Explicou-me que aquilo era à base de válvulas, não sei quantas, uma coisa à antiga, artesanal, uma obra de arte do som. Não sei, não percebo nada de electrónica, som ou acústica mas garanto-vos, era uma coisa à maneira, com a potência exacta, nem mais nem menos, para quem quer ouvir Honegger. Um som mais humano. E era disso que eu precisava agora.

Estava mesmo mal. Não como havia uma semana, mas estava mesmo mal. Agora tudo assentara e a poeira cobria-me numa sentença que eu começava pensar seria para a eternidade. Mas não era só eu. O ar destes tempos é demasiado leve. Estamos no fim do século, no último ano do século que vai passar, e não há muito de que possamos gabar-nos. As coisas são assim. Valem o que valem e pouco mais. "C'est l'air du temp". Hanibal Canibal Lecter disse-o num filme a uma moça simpática e sabia do que estava a falar. Ele saberia do que eu estou a falar.

Não, eu não podia deixar-me adormecer pelo estado das almas que me cruzam todos os dias. Eu tinha de me obrigar a pensar naquilo. Tudo devia estar escrito numa lógica qualquer. Mesmo que absurda. Talvez a lógica do crime e castigo com as nuances do Livro de Job, nunca entendidas pela essência judaico-cristã. Talvez remontasse a um tempo anterior àquela noite. Algo que fiz de mal, uma conversa que ouvi e não devia ter ouvido; uma rua em que cortei à direita e recusei o passo à esquerda, um dia, talvez há muitos anos. Ou talvez a mão de Virgílio que eu larguei, talvez naquela noite. Eu tinha de me obrigar a pensar naquilo. Como nunca, agora, 29 anos, longe dos oitenta quilos, era de mim que se tratava. Eu era só.



Dezasseis.


Entre outras coisas, pensar naquilo



Depois do banho e de me encher de cereais e sumo de frutas - pode parecer absurdo, mas eu continuei a fazer uma alimentação rica, equilibrada e saudável, como se tudo fosse voltar ao habitual na segunda-feira seguinte, como se eu apenas tivesse de estar em forma para os dias vindouros; como se rapadas as últimas esperanças do fundo das entranhas eu estivesse à espera que a qualquer momento pudesse tudo voltar ao normal e eu devesse estar na minha melhor forma para enfrentar o mundo -, como vos dizia, depois dos cereais e do sumo de frutas, fui sentar-me um pouco à varanda. Os miúdos estavam outra vez a jogar à bola, ao sol, em tronco nu. Corpos informados, sem género e embranquecidos pelo Inverno. Brancos, ainda sem estigma ou pecado.

Estavam a jogar apenas com uma baliza e o guarda-redes tinha o antebraço esquerdo esfolado e com terra. Tinha os olhos húmidos. Chorara pouco antes. O que não o impedia de cerrar os dentes e lançar-se de novo aos pés ágeis de outro miúdo que conseguiu passar-lhe a bola por debaixo do corpo. Este jogava sem meias e tinha sangue no tornozelo direito, da parte de dentro. Mais acima, no joelho, via-se uma cicatriz provavelmente feita há muitos meses, mesmo anos; esta prolongava-se ligeiramente para a direita numa crosta vermelho escuro. "Claro, é o miúdo que se aleijou há uns dias atrás, quando choveu." Tinha tropeçado na bola. Eu tinha de me obrigar a reagir.

Entretanto, passou uma rapariga por eles e eles pararam. Não por causa dela, mas porque ela decidiu atravessar o parque exactamente pelo meio do campo de futebol. Devia ter uns dezoito anos. Vestia um tailleur amarelo torrado tipo Chanel, talvez Chanel, debruado num amarelo mais escuro com alamares da mesma cor. Uma visão aterradora para as dez da manhã que começava numa bandolete castanha como os cabelos, mas estes mais claros, e acabava nuns Bally Bellezza bordeaux em pele de veado virgem mais caros do que o meu salário como assistente na universidade. Os collants com motivos, flores ou losangos - os meus olhos não perceberam e o meu cérebro não se interessou -, completavam a fotografia. O jogo esteve parado até que a pequena burguesa desapareceu por detrás de uma cabine telefónica.

Eles deixaram de a ver. Eu não. Encaminha-se para a floresta. Vai devagar. Desce a longa avenida de ventos que rudemente começam a estilhaçar-me os ouvidos. Por um momento quis adivinhar o seu rosto. Quando entrou na floresta as árvores dobraram-se à sua passagem penitenciando a reverência que os infantes lhe negaram. Tudo se suspendeu, então, e eu voltei-me para a solidão que era a minha.

Eles deixaram de a ver. O jogo recomeçou. Tinha dezoito anos. Eu nunca me engano na idade das mulheres. O aspecto dela agradou-me tanto como aos miúdos, mas a ideia de que ia ali uma fêmea deixou-me inquieto, excitado. Subitamente, absorvi a cena com um terno sofrimento e uma solidão gélida abateu-se sobre a paisagem. Uma mulher era coisa que eu não tinha há quase um mês, desde que saíra de casa de F. com a saliva dela no meu pénis. Oh! como tudo era diferente com Isabel.

Curiosamente, a falta de amor físico, o único que eu ainda conheço, foi coisa que não voltei a considerar desde que, ao ver-me no espelho, tive os primeiros sobressaltos acerca do futuro. Apenas agora, de forma inesperada, o coração se voltava a apertar-me dentro das calças. Os senhores devem imaginar como não há nada mais cruel do que isso para um homem impotente.

Que grande sorte me foi estendida pela mão de Isabel. Que alívio trouxe a sua existência àquela angústia ingénua que eu vivia pela manhã quando os meus olhos se fixavam no tecto. Foi esta sensação que eu tive novamente quando contemplava aquela ninfeta incompleta para o amor. A mesma impotência da razão turvada pelos sentidos. A neurastenia dos dias solarengos. Voltei a provar a química dos poetas que apenas na sua imobilidade sentada podem escrever o movimento sublime das pequenas insignificâncias vitais para nós e que apenas eles, poetas, podem escrever. A mesma impotência que não era nova para mim, apenas assumia outra forma. Mas eu reagia. Talvez Pol estivesse neste preciso momento a receber as coisas que lhe enviara. Eu queria, finalmente, a sua ajuda. A ninfeta chamara-me para a vida - poderia eu ouvi-la? - e o vento estilhaçante era agora uma brisa que acariciava as minhas orquídeas.



Amanhã há-de vir mais, até lá

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