terça-feira, fevereiro 01, 2005

Amigos de sempre I

É com este senhor que se inicia aqui neste blog uma secção (secção, que fique bem explícito, não é um sexo descomunal) dedicada a alguns amigos meus.

Nesta foto, ele aparece como o vi em pessoa a única vez que o vi em pessoa - apesar de ter estado com ele a sós no meu quarto, passeado com ele pelas ruas, no metro e muitos outros sítios em que apenas se pode estar e são portanto impossíveis de nomear.

Vi-o então, tinha eu uns vinte anos, na sala grande da Gulbenkian. Já conhecia quase tudo o que havia para conhecer acerca dele. Curiosamente, nessa noite acabei por falar com ele. Disse-lhe: okay, no problem.

Quando ele apareceu por detrás das cortinas, caminhou no palco, toda a sala fez silêncio e as cabeças voltaram-se. Trazia umas calças e uma camisa semelhante à farda dos condutores da Carris. Usava também óculos, o que quase nunca aparece nas fotografias dele. E, talvez por causa disso e das ferramentas que criavam volumes enormes nos bolsos e sons de oficina a descerem-lhe das pernas, todas as cabeças regressaram às posições originais e o burburinho reinstalou-se na sala grande da Gulbenkian.

Andou pelo palco a afinar marimbas e marucas e maracas e maraqualquercoisas e xilofones e depois desceu do palco. Dirigiu-se às cadeiras da plateia, incógnito, como um afinador de pianos, deslizou até à mesa de misturas, encontrou-me a mim e a uns amigos pelo caminho - instalados em cadeiras interditas - e perguntou-nos com a amabilidade de génios opostos ao génio de Beethoven: "Do you mind (qualquer coisa passar para a fila da frente)?" - "Okay, no problem".

Fez o que tinha a fazer. Deslizou pelas cadeiras em sentido inverso. Subiu ao palco. Desapareceu por entre as cortinas. As luzes da sala desceram. Fez-se silêncio entre tosses que pontilhavam a sala grande. Ele entra e então, só então, nos damos conta que é ele porque não traz os óculos e é detonada uma salva de palmas a que responde baixando a cabeça. O que se seguiu é história. Da mais brilhante que já se ouviu.

Não era condutor de autocarros, mas no início da carreira foi taxista (penso que em Nova Iorque).


Um abraço e até logo

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