terça-feira, maio 24, 2011

Três.

JANTARES DE QUARTA-FEIRA


Almoço, jantar, as mós a subir e descer umas vinte ou trinta vezes e goela abaixo. Não há muito a dizer, um acto social: matéria para alimentar as fornalhas da carcaça. Horários, interacção. Aqui, no terceiro andar que se elevava nove lanços de escadas acima da rua, estes eram jantares em que não havia uma agenda particular, não conspiravam: “Nós não somos aquele tipo especial de pessoas com potencialidades, quer dizer, motivados para alterar linhas de rumo; não passamos de quatro tipos que se juntam para cruzar receitas do Pantagruel com Keith Floyd” explicou um dia Tomás a um gajo da vereação da câmara – onde era remunerado por uma função entre assessor e ‘faz tudo para que a coisa não corra mal’, uma espécie de homem do lixo - que via naqueles manjares em quarteto uma actividade subversiva, incapaz de perceber a que ponto esse quarteto se tinha em má conta nos capítulos da diplomacia subterrânea. Numa aritmética dos valores capitais para assumir as rédeas da urbe, questão que por mais de uma vez lhes serviu para aclarar o palato entre o prato principal e a sobremesa, de uma coisa não tinham dúvidas: era vergonhoso que após anos a percorrer as plataformas da capital tivessem reunido tal inabilidade para se envolverem no andamento da engrenagem. Visto de fora dir-se-ia que tinham o que era preciso para pertencer a essa esfera onde se moldam as paisagens. Tinham tudo, tudo menos paciência. Ainda nos trintas (Joaquim andaria nos quarentas mas era coisa que ninguém queria saber), não tinham paciência, nem a paciência nem a motivação - eis. Eram aquele tipo de indivíduos que os sociólogos definem como peões com a função básica de sustentar a máquina, um lumpenproletariat das classes médias – diferente daquele que se aprende nos livros da primeira teoria social – um lumpenproletariat que finge as vitórias do dia, e por isso estavam bem, ou mal, era indiferente, andavam por ali camuflados entre gente a que se pode chamar cinzenta, gente que pela roupa, pela cara, pelo cabelo e pelos olhos têm uma aparência turva, cinza, como nos dias em que no céu não há nem tempestade nem sol, era o que lhes dizia a aritmética e não tinham motivos para proceder a alterações de rota num mundo ao qual nada exigiam e que em troca nada lhes pedia. Nada mais do que o indispensável era arrancado àquelas carcaças – foi sempre assim, até essa noite.

Para Tomás o dia começou a meio da manhã. Na praça do município passou horas a esgrimir neurónios com comunicados sobre relatórios económicos do banco central mas nunca chegou a pôr os olhos nos relatórios propriamente ditos, talvez por isso a frase possa ser e será seguramente mais correcta com uma ligeira troca na ordem das palavras:

passou a tarde a esgrimir neurónios com comunicados do banco central sobre relatórios económicos – um truque ranhoso mas cada vez mais habitual; fez uma pausa e foi sentar-se cinco minutos no pelourinho em frente do edifício-sede do executivo da cidade, fumou um cigarro contra todas as promessas da véspera e perdeu tempo a procurar um padrão na turba que se afadigava em peregrinações ao vagomestre de serviço: a entrada acelerada, a saída a passo, papéis na mão ou sacos para dentro dos quais deitavam os olhos de pé ou ajoelhados para melhor remexerem o interior, uma mão que hesita suspensa do antebraço, um ensaio de voltar para trás, reentrar no edifício, um pensamento a praguejar por todos os orifícios, a face que se toma de um rubor e o gesto abandonado quando logo após voltavam a sair, o passo a ganhar embalo, uma última espreitadela para os papéis, uma linha aproximada dos olhos, o nariz que encolhia até às pálpebras, e desistir, é desistir, porque aquilo era tudo o que podiam querer. E todos os dias era assim, voltou ao gabinete do vereador, respirou fundo e mergulhou até ao peito em papéis, voltou a respirar e afundou-se até ao queixo nos últimos indicadores da urbe, nada daquilo para que os cinco anos a caminhar para a escola de sociologia o tivessem preparado. Chegou a pensar que a vida pudesse ser outra coisa. Foram duas horas para sacar um texto insípido sem um único ponto de fuga, apenas capaz de o deprimir na exacta medida em que os cordeirinhos listados na taxação dos esgotos sentiriam crescer um falso conhecimento da contabilidade do município. Iluminados sobre os problemas que aí vinham e os que já aí estavam. Ninguém o preparou para ser aquilo, o muezzin que anuncia os versos da contabilidade. Pensava que a vida pudesse não ser triste. A mola real da vida, por que lhe repetia o pai tantas vezes isto? A mola real da vida eram meninos e meninas do papá a secarem o orçamento, sobrinhos, cunhados, sempre uma empresa à disposição, cartões de crédito numa roda-viva que ninguém controlava, estes e aquelas que todos os dias tinham agendadas idas aos paços do concelho para saírem com envelopes na carteira, sacos com mordomias que desdenhavam por acharem magras mas às quais se agarravam com força, gente que à noite, em noticiários amanhados à pressa, aparecia com o ar grave de quem entrega as energias à causa pública e mentia com uma capacidade inata, ludibriando a verdade com a convicção de um eleito. O pai nunca o chamou à parte para lhe explicar que a vida era isto, só aquele sinal de aviso atirado entre sorrisos: o dinheiro é a mola real da vida. Quando acabou a licenciatura de sociologia estava longe de imaginar que um dia acabaria sentado num gabinete de vereador a escrever sobre todas as coisas que passara a vida a contornar, sempre à distância, como quem atravessa um campo de cultivo nos arrabaldes de uma aldeia pequena e evita o monte de estrume na extrema do terreno. Quando o pai lhe telefonava logo após o almoço “boa tarde, amigo” e depois de lhe perguntar então estás trabalhando com uma espécie de gozo escondido no gerúndio arcaico e ele lhe respondia com um sim enfastiado e o pai voltava com um que falta de gosto lembrava-se sempre desse dia solitário em que desceu a avenida das universidades varrida pelo Sol frio de Inverno com um papel no bolso que o atestava doutor, foi uma manhã em que pôs fim ao percurso iniciado numa manhã longínqua numa escola pequena de dois pisos, eram quatro salas de aula e um recreio que separava o edifício rectangular da estrada, e que dava para esfolar os joelhos em jogatanas durante os intervalos, foi um caminho que lhe levou duas décadas, e duas décadas depois discutiu uma tese que durante meses lhe alimentou o instinto da dúvida, agora tão arredio que se admirava ter construído em tempos um espírito de tal modo crítico que só uma ideia incorrecta na conjugação gramatical lhe eriçava todos os neurónios de uma assentada. Vinte anos. Na manhã em que desceu aquela avenida pela última vez todos os sonhos se afundavam. Descia a avenida doutor e nunca se sentira tão só, perdido por ali abaixo onde antes passeou angústias académicas entre gajas e cervejas. Descia a avenida tomado por uma súbita tristeza - uma melancolia que se abatia como uma brisa quente contra o gelo de Fevereiro -, com a memória desse primeiro dia de escola, perdido num vai-e-vem entre as duas salas da primeira classe e uma senhora que era para ele velha e o recusou por três vezes mas a quem passaria a chamar de professora. Mas esta tarde, nesta quarta-feira, os pelos da nuca eriçaram-se de novo e o nariz voltou a vibrar-lhe quando passou de raspão por um despacho do gabinete do seu vereador, um despacho tardio, já com o casaco debaixo do braço e a segundos de abandonar o edifício. Leu as primeiras linhas quase à pressa e depois todo o texto em velocidade de cruzeiro. Algures, alguma coisa escapava à mecânica dos elementos. Supressão, o termo não soava bem, era um conceito que ali lhe soava a estranho e retiniu-lhe nos ouvidos, mas quis atribui-lo a um estagiário maçarico da equipa do vereador que tivesse arriscado pôr a jogo um léxico mais arrojado, pobre mas arrojado. Ainda a olhar de lado para a folha de papel agarrou na pasta enquanto mastigava a frase que juntava supressão não com postos de trabalho mas com trabalhadores: supressão de trabalhadores.

Quando entraram no carro, nem Andrés nem Tomás sabiam do que era a vida nos seus limites, dos compromissos vitais da sobrevivência, do sistema de predação que trazíamos connosco desde os primeiros dias em que um projecto de homem assentou os pés na terra de uma savana africana e levantou as mãos do chão, primeiro talvez com a postura desajeitada de um suricata, para depois erguer também os olhos no que culminaria numa caçada eterna e sem limites. Morus disse há uns anos dos homens que se se trata de conquistar novos territórios, todos os meios se lhes afiguram bons: nada os detém, nem o sagrado, nem o profano, nem o crime, nem o sangue. Não sabiam – àquela hora – ainda não sabiam nada sobre o que a vida também podia ser. Tudo era uma brincadeira de crianças grandes com dinheiro nos bolsos e uma chave para entrar em casa. Andrés e Tomás preparavam-se apenas para arrancar em direcção à Baixa. Pudessem rebobinar os acontecimentos do dia e teriam notado que Joaquim lhes ligara para os lembrar do jantar, com uma voz parda, quase de fundo, mas telefonou, logo pela manhã; pudessem eles rebobinar a vida e não estivessem tão absorvidos pelos nadas da tarde e haveriam de assentir que era estranho e o teriam mandado a algum sítio. Há anos que jantavam juntos em casa de Joaquim. Por quê lembrá-los?


* * *

Tomás entrou no carro e deixou-se cair no banco, com todos os oitenta quilos de uma assentada, enterrando-se na pele clara e gasta. Andrés está a informar Tomás vou tirar a capota mas ele torce o nariz e acena que não com a cabeça e murmura qualquer coisa “… frio”. Ouve, preciso deste ar húmido nas trombas – mas Tomás continua enterrado no banco de couro. Passa os dedos pelo queixo e coça as costas da mão nos pêlos ásperos. Olha para a barba no espelho. Uma velha vai à janela. Andrés, que acaba de desistir da ideia e bate com a porta da mala acena-lhe um adeus largo, abraçando a ambiguidade de que tanto gosta. Andrés gosta dessa ambiguidade, cultiva-a, traços que mantém desde que a universidade o obrigava a horas a fio de estações de autocarros. (Só, em momentos pródigos de cenas de ternura alheia, pousava a mochila e fazia a sua cena: voltava-se para trás e acenava para os autocarros que partiam, colhendo beijos entre a névoa de gasóleo queimado. Dos autocarros levantavam-se braços ligados pelas artérias a corações embalados em ponto morto e prestes a arrancar. Interessavam-lhe esses beijos que partiam das mãos em concha e que devolvia de olhos semi-brancos, gestos da perfeição, sem reverso, sem penas, um adeus lacrimoso que guardava por segundos, talvez rematado com um lenço branco a colher pérolas de saudade já insuportável.) Fechado o capítulo dos autocarros, dedica-se sempre que pode às janelas da capital. A pobre senhora gesticula a pequenos impulsos com a mão direita, enquanto se debruça e aconchega os óculos com a esquerda. Encarquilha a boca e o nariz, que conjugam um ponto de interrogação, e estica o pescoço, estica-se toda “mas… mas…” engelhada, estica-se sobre o parapeito mas entretanto já Andrés entra no carro e mete primeira com um sonoro adiós que retumba de parede a parede nos prédios que se enfrentam. Ligou o rádio. Baixinho, ouviram uns acordes de guitarras de play list, o que origina uma reacção pavloviana e um dedo a mudar de estação para a Radar. – Põe na Voxx, a esta hora na Radar são muito sorumbáticos – tentou Andrés, mas um gesto curto de Tomás, acompanhado da notícia o António Sérgio morreu a sair dos 97.8 fê-lo dar a aposta por perdida e já soavam os samplers de Neil Tolliday & Simon Mills quando começaram a rodar pela Defensores de Chaves, rua de afamadas putas sem interesse. E às vezes sem dentes. Subiram a Casal Ribeiro para o Saldanha e meteram pela Fontes Pereira de Melo abaixo. Sem dizer palavra.

Ao som dos Bent. António Sérgio morreu esta noite. Não fomos feitos para durar. A selva continua a ceifar-nos como tordos.

Subitamente, a quarta-feira fica quente. As avenidas que levam à Baixa pulsam de electricidade – sabe-se lá porquê - ainda com as luzes de Natal. Famílias inteiras enchem os passeios. “Leste o que disse o cabrão do vereador?”; um vereador do município declarara a um jornal qualquer coisa sobre o último estertor do estado social, foi este o termo que utilizou: estertor. “Li, o cabrão.” Eram duas almas penadas que percorriam agora a longa avenida em direcção aos Restauradores num roadster que se impunha antigo na carcaça corroída de tinta a estalar mas sem idade para ser um clássico. No stand o vendedor manhoso esticou a barriga para Andrés e atirou-lhe com um green very british. Respondeu com um passing-shot; verde azeitona encarquilhada, pode embrulhar, é para levar. Continuaram a descer a avenida escurecida pelo Sol ausente e acesa pelos milhares de pequenas luzinhas que se misturavam com o azul-da-prússia que donde estavam cobria o rio logo acima da iluminação dos armazéns nos terminais da doca. Já não era aquela luz quente, dos restos de Sol, que na capital, ao fim do dia, se embrulha até ao estômago, uma luz que só ali, quando a cidade se ausenta; era apenas outra luz. (Andrés:) Chateei-me com a Ana. Acho que isto não vai até ao casamento. (Tomás:) Já sabia. (Andrés:) Vou ter que falar com ela. (Tomás:) Chatearam-se porquê? (Andrés:) Sei lá, não me lembro. Nada mais foi dito, só os Bent continuaram a soar. Por um momento a avenida apagou-se e ficaram submersos na escuridão, um negro que chupava todas as forças e os deixou por segundos à deriva, até que desembocaram na Praça dos Restauradores.

Chegam a casa de Joaquim. Andrés, o único que ainda transmite: Tens aí a chave? – Tomás tinha a chave. Ter as chaves de casa uns dos outros era um elemento do domínio da modernidade mas também era coisa de quem não tinha mais ninguém. Com aquela chave na mão estavam investidos de um dia entrarem à pressa no quarto de uma certa casa para encontrarem o amigo sem vida e impedirem que o corpo em decomposição empestasse todo o prédio, o que seguramente tornaria os vizinhos irritadiços. E com razão. Subiram a pé, três andares, nove lanços, setentaeduas escadas. Andrés tocou três vezes e meteu a chave à porta. Antes que a pudesse rodar, Joaquim abriu sem um olá, boa noite ou entrem ou eia, nada. Voltou-lhes as costas, uma camisa de linho preto, amarrotada, na mão esquerda. Descalço, Crockett and Jones na direita, o equivalente a uma semana dos salários de qualquer um deles. Dos dois juntos. Joaquim era o playboy do grupo. Quase um metro e noventa, um daqueles tipos que quando chegam aos casamentos os querubins voltam-se das paredes e sopram as suas cornetas, um sedutor que passa mais tempo a comer brasas do que ração para o corpo. Talvez por isso fosse magro e musculado – não lhe faltavam oportunidades para queimar calorias. Ainda Tomás e Andrés não tinham dito “então?” e já lhes tinha virado as costas. (Andrés:) Tens uma mancha esquisita nas costas. (Joaquim, de mau humor:) Deve ser uma osculação. (Pára a meio do corredor, estica a omoplata para Andrés:) Vê, vê. (Andrés:) É uma osculação, é. E ri-se. Joaquim corta à esquerda para o quarto, eles seguiram para a direita rumo à sala. Jean Pierre acaba de se levantar do sofá, vem ao encontro deles: Ele está doido. Grande novidade.

- Então, o que é que se passa? – Perguntou Tomás – Estamos com o período, é?

- Vão dar uma volta – atirou Andrés, a caminho da cozinha e da colecção dos Cabernet Sauvignon franceses de Joaquim, que se cruzou com ele e entrava na sala para se sentar à mesa escura, ao fundo, posta com os quatro pratos, e calçava os sapatos castanho-escuro e apertava os atacadores. Faz um gesto vago com a mão “Tenho fome. Vamos jantar”.

Jean Pierre está há um minuto a mastigar sílabas que saem moídas: “Tenho fome, diz ele”. Tomás e Andrés olham JP. Tomás sério, Andrés quase a rir. “Não olhem assim para mim. Ele quer matar um homem” – geme baixinho Jean Pierre, para que ninguém o oiça, provocando uma gargalhada em Andrés, que parece reencontrar o caminho para a boa disposição. “Como assim?” perguntou enquanto trincava qualquer coisa. Joaquim levantou-se: Assim. Eles sabiam do que, com a motivação certa, o dono da casa era capaz, pelo que alguma verdade devia haver naquele ele quer matar um homem, mas não era coisa que quisessem para já elevar à categoria de assuntos importantes. Eu não – corrige Joaquim - nós. Eles eram um grupo de quatro tipos indiferentes que não aspirava a assumir fosse o que fosse; que manifestavam total inabilidade para se envolverem no andamento da engrenagem; aquele tipo de pessoas cinzentas na motivação e a quem nada era possível arrancar além do indispensável; por isso, este intróito que anunciava decisões graves apenas parecia perturbar JP. Raramente levavam alguma coisa a sério, pelo que os recém-chegados tinham como certo que o assunto deveria morrer por si.

Joaquim: Vamos jantar. Vou buscar o resto das coisas.

Jean Pierre começa a fazer uns barulhos estranhos, como se estivesse a ter um ataque de asma, mas na alma. - Ouve – gritou-lhe Joaquim – é escusado ficares assim, parece que estás em trabalho de parto. Andrés, põe qualquer coisa a tocar e desliga a merda das World Series, não sei o que vês nuns gajos a bater com uns paus numa bola pequenina. Tira essa merda.
Um aroma agradável passeia-se entre a cozinha e a sala e dá cor à neblina que se abate do lado de fora das janelas, o H maior, como se o mundo estivesse como nunca esteve, perfeitamente nos seus carris. Andrés está aos pinotes com o trip-hop mais antigo dos Massive. Tomás pegou nos talheres e nuns copos ocos, que logravam o prodígio de levar o líquido pé abaixo, enquanto Joaquim agarrava em duas travessas com peito de pato à pimenta e completava o malabarismo a endireitar na cabeça uma terrina de metal com salada de pimentos acabada de sair do frigorífico. - Já levas o vinho?, ri-se – Tomás vê-o de Carmen Miranda, ri e deixa sair um som que sim. Era um falso equilíbrio que impelia os movimentos entre a cozinha e a sala, entre o sofá e a mesa. “Agora vamos comer que eu estive duas horas na cozinha por vossa causa”. Os assuntos de JP eram tão frescos que Tomás e Andrés não tiveram qualquer problema em assinar de cruz e apesar do seu estado de inquietação acreditavam que – conheciam como ninguém a natureza de Joaquim – tudo não passava da exacerbação de um problema menor, um empolgamento que a mente frágil de Jean deixava escorregar para os esconsos de um baldio com um homem meio-morto a agarrar-se-lhes às biqueiras dos sapatos, uma geografia de sangue desenhada em areias claras. Eram tão raros os momentos em que se deixavam levar pelas formalidades da vida que não era menos do que uma certeza que a má disposição de JP estaria já exangue entre o prato principal e as aguardentes.

Nove e vinteecinco, toca o telemóvel de Jean Pierre.

- Oh merde, é do escritório.

- Não atendes – gritou-lhe Joaquim – dá-me essa merda.

Jean Pierre levantou-se: Vou atender.

- Foda-se, não atendes coisa nenhuma – Joaquim carrega com os olhos o “não atendes coisa nenhuma”. Jean Pierre continuava a olhar para o visor verde. O telemóvel calou-se. Era ele, tenho a certeza.

- Ele, quem? – quis saber Andrés, entretido com um amendoim.

- O gajo que ele quer matar – fez uma pausa curta. – O meu chefe.

Silêncio; procuram ordenar o pouco que foi dito; Joaquim – os olhos na parede oposta com prateleiras e livros e plantas, as plantas de Joaquim, um vaso com uma meia dúzia de folhagens raquíticas e amarelecidas que o bibliotecário insistia, de fé inabalável, regar a cada sete dias – sentenciou: Deviamos pensar nisso. Os quatro.

Andrés, com Cabernet Sauvignon a injectar as válvulas internas, irrompeu em nova gargalhada soluçante, abafando a canção dos Gus Gus que saía da Sony.

Deviamos pensar nisso. O quê, matá-lo? Os quatro? (Andrés ainda ensaiou Não chegas para ele? mas não lhe saiu) Os quatro. Que Joaquim era capaz de arrancar a vida de dentro de um gajo com as próprias mãos ninguém ali tinha dúvidas de que, com a motivação certa, era um cenário possível. Mas – todos? Os quatro? Os irmãos Dalton versão série b? Andrés ria, sem perceber como tudo mudara antes de arrancar a janta.

- Ouve – disse-lhe – eu não andei bem a tarde toda – volta a rir-se – agora queres que eu vá esganar um gajo que não conheço, de quem só ouvi falar. O que é isto?

Joaquim: Lembras-te daquele sórdido episódio da caneta? – virou-se para Jean Pierre – contaste-lhe? Vá lá, o Andrés quer saber coisas.

JP está próximo da miséria total, reúne forças, assente: Sim. Joaquim aproveita o balanço: Okay, então conta-lhes o que está a ser preparado lá na tua empresa. Conta-lhes como vai ser sanada a questão da contabilidade falida. E aproveita e diz-lhes que estás a ser empurrado pelo Rodrigues para assinares a certidão de óbito de um monte de desgraçados. (pausa) Conta-lhes tudo.

- Foda-se – na boca de Jean Pierre esta conjugação prenunciava cataclismos, a Terra deixava de rodar nos seus eixos. – Vou buscar uma preta. Estou quase a dormir com o vinho.

1 Comentários:

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3:29 da manhã  

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