sábado, novembro 14, 2009

Dois.

JANTARES DE QUARTA-FEIRA

A noite iniciava-se com uma dose de serenidade que tresandava a falso por todos os poros. O tempo descia sobre as ruas num manto de grão antigo e os elementos perdiam a imperfeição diurna, as sombras a disfarçar pedaços de tinta que estalavam num prédio ou os remendos da estrada que se tornavam pardos e uniformes com o alcatrão, e ali uma árvore escanzelada que era agora à luz de candeeiros uma fantástica silhueta espectral de El Greco e um par de velhos que arrastava os pés longe do Sol revelador e estava agora em perfeita sintonia com o entardecer dos relógios. Um cão de cinco quilos rodeados de pêlo que rodopiava no ar entretido com uma borboleta noctívaga. A harmonia que descia generosa sobre a vida, quando os raios fugidios do último sol da tarde contornavam a última esquina a caminho do poente. Ah a harmonia com que podíamos contar todas as noites na medida de um H maior. Quando Tomásc apareceu à porta, Andrés enterrava-se no carro até meio do banco, alavancado com um joelho no tablier. Gotículas de melancolia escorriam no ar em volta a fazer dançar as luzes que se instalavam dos candeeiros. Vultos apareciam para desaparecer nas suas vidas ao virar da rua, primeiro de frente, depois no retrovisor e a dobrar uma esquina de pedra. Uma tristeza sem sentido, era uma tristeza que nos dilacerava por dentro. Foi neste palco que Tomásc apareceu à porta, com um aceno triste e abalado. Nada daquilo lhe parecia certo e uma súbita angústia atou-lhe uma ponta da vesícula a meio do duodeno a meio caminho da boca do estômago. Não estava aprumado. A barba de dois dias não colhia as bênçãos da noite. Olhos afundados abaixo da testa. Aquela noite era um mau começo.

Há anos que todas as quartas-feiras se reuniam para jantar em casa de Joaquim – só um acontecimento extraordinário determinava que se encontrassem dispersos por outras coordenadas. Os outros que hão-de aparecer à mesa são Joaquim e Jean-Pierre. Nunca durante esses jantares havia uma agenda particular, quer dizer – não conspiravam. “Nós não somos aquele tipo especial de pessoas com potencialidades, quer dizer, motivados para alterar linhas de rumo; não passamos de quatro tipos que se juntam para experimentar receitas do Pantagruel e do Keith Floyd” – explicou um dia Tomásc a um gajo da vereação que via nos manjares a quatro uma actividade subversiva. Não imaginava o tal tipo como todos se tinham em tão má conta nesses capítulos da diplomacia subterrânea. Numa contabilidade dos valores capitais para assumir as rédeas da urbe, assunto que de vez em quando aparecia entre o prato principal e a sobremesa, estava comummente aceite pelo grupo que apesar das funções que desempenhavam, nos lugares em que as desempenhavam, era quase vergonhoso a total inabilidade que manifestavam para se envolver no andamento da engrenagem. Não tinham nem a paciência nem a motivação. Se um dia lhes atirassem que eram aquele tipo de indivíduos a quem os sociólogos atribuem a básica função de sustentar a engrenagem, seja ela qual for, nada mais lhes restaria do que baixar a cabeça e verter uma ou outra lágrima a contornar um sorriso calado. Pois, era um lumpenproletariat que vai fingindo as vitórias do dia. Mas estavam bem, ou mal, ou qualquer coisa, e não tinham motivos para proceder a alterações de rota no perfeitamente esférico mundo – nada mais do que o indispensável era arrancado àquelas carcaças. Até essa noite.

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