domingo, novembro 08, 2009

Um.

ANDRÉS

“Não fomos feitos para durar”. A ideia tomava todos os recantos internos do crânio de Andrés enquanto conduzia, cigarro ao canto da boca, braço esquerdo de fora e mão direita no volante, em direcção a casa. A noite estava quente ou amena ou qualquer coisa assim. Uma brisa entrava pela janela e atirava-lhe o cabelo contra os olhos. Não fomos feitos para durar. Às nove, encontrava-se com Tomásc e iam depois para casa de Joaquim onde há anos jantavam todas as quartas-feiras. Enquanto conduzia, procurou esse momento, desde os primeiros minutos da alvorada, desde que se levantara, esse momento que havia desencadeado a epifania que agora o entretinha. Que quieta violência teria sido essa que com pezinhos de lã o levou ao que agora lhe parecia a consciência última das coisas. Uma verdade primordial que lhe ocupava todos os sentidos já como um aborrecimento. Foi rolando pela cidade enquanto o GPS interno procurava as coordenadas da epifania derradeira: reviu o dia desde que se levantou mas nada lhe parecia digno de sentenças ou oráculos ou outras artes de xamanismo. Parado num sinal, veio-lhe apenas à cabeça esse pormenor, uma coisa insignificante, a frase surgira-lhe primeiro na forma de uma tirada em inglês We were not made to last, como uma deixa de filme bom com gente má; um ensinamento juvenil que se ouve numa canção em moda. À primeira vista aquilo era nada, um verso de canção que se insinuava das rádios com o Verão que aí vinha. Uma merda daquelas que todos os anos se anunciava para os dias quentes com esplanadas e gajas na praia. Mas esta era uma explicação escassa que não satisfazia Andrés. Aquelas palavras todas juntas, com a harmonia de uma frase para fagote a anunciar um requiem sofrido com batidas meladas, assumiam a forma de uma sentença para ele próprio, ele que temia essas esconjurações do acaso que ajudam a germinar num homem prenúncios de catástrofe, os cenários ideais para despertarem a desordem obsessiva compulsiva que cada vez mais lhe tomava conta de pequenos gestos que se esforçava por padronizar num derradeiro esforço de controle do bem e do mal. Por isso, plantado nas fronteiras do mais bem guardado dos seus segredos, um ditame organizado daquela forma não podia ser uma coisa desprovida de significado, via-o mas era já como uma manigância do caos. Qual reminiscência anunciada em programas manhosos da televisão que madruga qual quê. Nah! Aquele pensamento já estava a afectar a clarividência de Andrés. Não fomos feitos para durar. Todo o dia escoltado pela mais esquerda das ideias. À mesa de trabalho aplicou considerável energia em esquadrias perfeitas entre as canetas e as folhas e o teclado do computador e até do próprio monitor mas foi em vão que procurou acalmar a besta que lhe trauteava ao ouvido entre o martelo e a bigorna. Quando virou da António Maria do Bocage e começou a procurar um lugar para deixar o carro estava pálido, com as mãos húmidas. A frase formara-se já perfeita no seu cérebro, sem intervenção humana, ditada aos próprios neurónios. A ordem das palavras só de si bastava-lhe para saber que não se tratava de uma mera tautologia: não - aquele era um princípio poderoso que iria fazer sentido a qualquer momento, que o iria apanhar de surpresa mesmo no seu estado de alerta.

Procurava ainda a saída do labirinto quando pegou no telemóvel. Tomásc, estou aqui em baixo à tua espera. Sobe. Não quero, despacha-te. Tomásc abotoou as calças enquanto enfiava os pés nos sapatos de couro avermelhado que comprou nos saldos. Apertado o último botão das calças, deu-se conta de que tinha perdido quilos a mais. E não tinha sido nas corridas de fim de tarde. A vida, com a sua normalidade aparente, quase doentia, não lhe corria na medida do que era exibido pelos índices exactos. Apoiado no lavatório da casa de banho, pressionado pelas buzinadelas de Andrés, hesitou em aparecer escanhoado nesse jantar dessa quarta-feira. Voltou-se para a esquerda, direita, esticou o queixo para cima. Os restos do dia não iriam incomodar os amigos porque não era por eles que sentia esse estranho dever da aparência de uma saúde perfeita. Era por ele, sentia-se dez anos mais velho dos que os trintaeseis e fazer a barba tirava-lhe a década de cima e com sorte era ainda capaz de lhe dar um bónus, como por vezes desejava, quando de sorte se via entre meninas de liceu, coisas que lhe aconteciam e que sem necessidade de prodígios o podiam deitar de costas mas no calabouço mais próximo. “Fuck it” – no que lhe saiu entre dentes num inglês ouvido e reouvido em cenas de filme cabotinas e sem imaginação. Agarrou nos cremes e passou-os pela pele como se acabasse de aparar os restos do dia. Sentiu-se fresco e pronto. “Que se fôda” – não conseguiu impedir-se de traduzir o que lhe passara pela cabeça.

No carro, Andrés congeminava contra nada, um libreto que cantado a solo era sempre imbatível. Quando voltou a buzinar para o sexto frente não imaginava que um homem estivesse já a fazer o caminho para o cadafalso.

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