quarta-feira, outubro 01, 2008

Dois.

JANTARES DE QUARTA-FEIRA

A noite iniciava-se. O tempo descia sobre as ruas num manto de grão antigo na tela toda em volta. As coisas perdiam as imperfeições e André enterrava-se até meio do banco, com um joelho alavancado no tablier. Gotículas de melancolia escorriam pelo ar à volta a fazer dançar as luzes que se instalavam dos candeeiros. Os vultos apareciam para rapidamente desaparecer. Primeiro de frente, depois no retrovisor, depois numa esquina de pedra. Puta de tristeza sem sentido.

Tomás apareceu à porta com um aceno triste e abalado. Aquilo não lhe pareceu bem e uma súbita angústia atou-lhe uma ponta da vesícula a meio do duodeno a meio caminho da boca do estômago. Tomás não estava bem aprumado. Com barba de dois dias. Olhos afundados abaixo da testa. Aquela noite era um mau começo. Há anos que todas as quartas-feiras se reuniam para jantar em casa de Joaquim – só por um grande acaso as coordenadas os punham noutro local - os outros que hão-de aparecer à mesa são Joaquim e Jean-Pierre. Nunca falavam de nada em particular, quer dizer – não conspiravam. “Nós não somos aquele tipo especial de pessoas com potencialidades, quer dizer, motivados para alterar linhas de rumo; de facto, não passamos de quatro tipos que se juntam para experimentar receitas do Pantagruel e do Keith Floyd.” – explicou um dia Tomás a um gajo do escritório que via nos manjares a quatro uma actividade subversiva. Não imaginava o tal tipo como se tinham – todos – em tão má conta nesses capítulos da diplomacia subterrânea. Julgavam-se muito mal mesmo, numa derradeira contabilidade dos valores capitais acreditavam piamente mal chegar à mediania. Aquele tipo de indivíduos, como os sociólogos fazem questão de chamar às pessoas que sustentam a engrenagem, seja ela qual for. Um lumpenproletariat que vai fingindo as vitórias do dia. Mas estavam bem, ou mal, ou qualquer coisa, e não tinham motivos para proceder a alterações de rota no perfeitamente esférico mundo – nada mais do que o indispensável era arrancado àquelas carcaças. Até essa noite.

Quando entraram no carro, naquele final de dia de final de Abril, nem André nem Tomás sabiam que estavam prestes a tomar uma decisão sobre a vida ela própria. Tão pouco Jean-Pierre.

Tomás entrou no carro e deixou-se cair pesado, enterrando-se no banco.
- Vou tirar a capota – diz-lhe André, sem entoação. Tomás torce o nariz. Quase próximo do negro, mas sem expressão, acenou negativamente com a cabeça.
- Estão trinta graus. Vou tirá-la – Tomás continuava enterrado nos bancos de couro escuro, como o carro. De vez em quando passava a mão pelo queixo. Olhou para a barba no espelho. Ainda se preocupa. Uma velha foi à janela. André acena-lhe um adeus largo, tinha este hábito sempre que encontrava desconhecidos a mais de dois metros do chão. André gosta da ambiguidade e cultiva essa actividade desde os tempos de universidade, quando foi obrigado a frequentar estações de autocarros e de comboios. Só, como se sentia nesses momentos de abraços e beijos alheios, muitas vezes pousava a mochila, voltava-se para trás e acenava para os autocarros que partiam. E aqui gozava ele os frutos da ambiguidade, colhidos ali mesmo, entre a névoa de dióxido de carbono que levava um homem à alucinação. Dos autocarros levantavam-se braços com o destinatário bem definido mas com o remetente a olhá-lo de lado. E não fazia diferença que nenhuma morada fosse a dele. Interessava apenas colher a dádiva, um adeus carinhoso sem retorno, todo perfeição, sem reverso, sem penas, apenas um adeus lacrimoso que ele podia guardar por dez longos segundos, talvez rematado com um beijo que alguém lançasse entre os dedos. Os prédios eram de há uns tempos para cá o sucedâneo que se receitou a si próprio. A pobre senhora gesticula a pequenos impulsos com a mão direita, enquanto se debruça e aconchega os óculos com a esquerda. Encarquilha a boca e o nariz num ponto de interrogação e estica o pescoço o mais que pode, mas entretanto já André entra no carro e arranca, com um carrancudo adiós que retumbou de parede a parede nos prédios que se enfrentavam.

Ligou o rádio. Baixinho, ouviram uns acordes de guitarra. Inclinaram ligeiramente a cabeça um para o outro. – Foda-se, música de pacote não – pediu Tomás. André teve uma reacção pavloviana e mudou de estação para a Voxx. – Põe na Radar, a esta hora na Voxx são muito sorumbáticos – mas um gesto curto de Tomás fê-lo dar a aposta por perdida – Ok. Começaram a rodar pela Defensores de Chaves, rua de afamadas putas sem interesse. E às vezes sem dentes. Subiram a Casal Ribeiro para o Saldanha e meteram pela Fontes Pereira de Melo abaixo. Sempre sem dizer palavra. Ao som dos Bent.

A noite continuava quente, para quem isso interesse. A Avenida da Liberdade cheia de luz era um insulto para o estado de alma em que se encontravam. Eram dois tipos perdidos a percorrer a Liberdade em direcção aos Restauradores num roadster que se mostrava velho na sua carcaça corroída de tinta a estalar mas sem idade para ser um clássico. No stand manhoso o vendedor atirou-lhe com um green very british. Respondeu com uma esquerda ao longo. Verde azeitona encarquilhada.

Desceram a avenida já escurecida pelo Sol e acesa pelas luzes da iluminação de centenas de candeeiros. Aquela luz da tarde, a puta da luz da tarde que é quente ao fim do dia, que nos embrulha e interdita todas as agonias. Aquela luz que só ali.

Com a luz da cidade ausente. Quando chegaram a casa do Joaquim, virou-se André, o único que ainda transmitia - Tens a chave? – Tomás tinha a chave. Ter as chaves de casa uns dos outros era bonito, mas também era coisa de quem não tinha mais ninguém. Subiram. A pé, três andares, que Joaquim insistiu que poupava cinco mil a comprar casa sem elevador e ganhava em troca forma física e disciplina.

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