domingo, setembro 28, 2008

o primeiro capítulo do que será o que Deus quiser que seja

Um.

ANDRÉ

“Não fomos feitos para durar”. A ideia não saía da cabeça de André enquanto conduzia, cigarro ao canto da boca, braço esquerdo de fora e mão direita no volante, em direcção a casa. A noite estava quente, ou amena ou qualquer coisa assim. Uma brisa entrava pela janela e atirava-lhe o cabelo contra os olhos. Não fomos feitos para durar. Às nove, encontrava-se com Tomás e iam depois para casa de Joaquim. Enquanto conduzia, procurou esse momento, desde os primeiros minutos da alvorada, desde que se levantara, esse momento que havia desencadeado uma frase tão negra no seu cérebro. Que quieta violência teria sido essa que o levou à aparente consciência última das coisas. À verdade primordial que agora lhe ocupava todos os sentidos. Reviu o dia desde que se levantara e nada lhe parecia digno de sentenças ou oráculos ou outras artes de xamanismo. Parado num sinal, veio-lhe apenas à cabeça um pormenor, insignificante, a frase surgira-lhe primeiro como uma tirada em inglês: “We were not made to last”. Como uma deixa de filme bom com gente má; um ensinamento juvenil que se ouve numa canção em moda. Como se fosse uma coisa do Verão que aí vinha. Mas não - não podia ser apenas isso. Aquelas palavras todas juntas, assim, eram uma sentença para André. Um pensamento organizado daquela forma não podia ser uma coisa desprovida de significado, uma manigância do acaso. Dessas reminiscências epifânicas anunciadas em programas manhosos da televisão que madruga. Nah! Aquele pensamento começava a afectar a clarividência de André. Não fomos feitos para durar. Todo o dia escoltado pela mais funesta das ideias. Quando virou da António Maria do Bocage e começou a procurar um lugar para deixar o carro estava pálido, com as mãos húmidas.

A frase surgira-lhe perfeita, como uma verdade suprema. A ordem das palavras só de si bastava-lhe para saber que não se tratava de uma mera tautologia: não - aquele era um princípio inegável que devia já fazer sentido. Procurava a saída do labirinto enquanto trocava de roupa, tocou o telefone. Era Tomás - estava pronto e esperava por ele. Abotoou as calças enquanto enfiava os pés nos Timberland de vela que comprou nos saldos. Apertado o último botão, deu-se conta de que tinha perdido quilos a mais. E não tinha sido no ginásio. A vida, aparentando uma normalidade quase doentia, não lhe corria tão bem como os índices exactos mostravam. Apoiado no lavatório da casa de banho, hesitou em aparecer barbeado nesse jantar de quarta-feira. Voltou-se para a esquerda, primeiro, depois para a direita, esticou o queixo para cima. Sabia que os restos do dia não iam incomodar os amigos - não era com eles que deveria manter aquela aparência da saúde perfeita exigida nos melhores escritórios da capital – era por ele, sentia-se dez anos mais velho dos que os 36 que tinha e fazer a barba tirava-lhe a década de cima e ainda era capaz de lhe dar um bónus. “Fuck it” – no que lhe saiu entre dentes mas de novo numa frase perfeita, era o dia das frases exactas, desta vez num inglês ouvido e reouvido em cenas de filme cabotinas e sem imaginação. Agarrou nos cremes e passou-os pela pele como se tivesse mesmo acabado o escanhoado. Sentiu-se fresco e pronto. “Que se foda” – não conseguiu impedir-se de traduzir o que lhe passara pela cabeça.
Quando entrou no carro pensou se valeria a pena lançar o isco para agarrar uma conversa contra a pátria mãe, a puta da pátria que quase desprezavam. Seria fácil, do nada bastava-lhe um “esta merda de país do Norte de África”. O resto, viria por acréscimo e iria com a maior das naturalidades acabar “neste terceiro mundo”. Estava a armar a decisão, sem nenhuma importância, quando virou para a Visconde de Valmor. Só para arreliar na medida do aborrecido começou a preparar argumentos que colassem os restos da história como quem une pedaços de porcelana do império para fazer a glória do Portugal moderno, à beira do mar, de cinzento garrido, a um passo do caminho. Arrumou os argumentos, nessa noite seria advogado do diabo, o libreto parecia-lhe imbatível. Pelo menos assim, enquanto cantava a solo. Quando buzinou para o sexto frente não imaginava que a conversa iria versar um tema absolutamente diferente. O mesmo, mas inteiramente diferente.

2 Comentários:

Blogger Ric ;) disse...

me = liking it.

mas eu tirava dali o "timberland"; distrai e n vale de nada.

vais continuar a por aqui mais capitulos?

11:25 da tarde  
Blogger pol disse...

também acho, aliás, já há algum tempo que vinha a achar a merda dos timberland a mais

para continuar, é o mais provável, por mais que me doa

12:22 da tarde  

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