sexta-feira, janeiro 16, 2009

(este texto não foi corrigido porque o autor estava estoirado)

Fuga em frente.

Aqueci ligeiramente os músculos antes de sair do prédio. Fiz depois alongamentos para não rebentar com as pernas. A porta estava a fechar-se por detrás de mim enquanto escolhia a música para o itinerário desta tarde. Ponho os óculos de lentes amarelas e carrego em play. O Movement dos New Order há-de servir. O Sol está a escapar-se e o fim da tarde parece-me mais frio do que estava há espera e tenho a impressão de que me vão fazer falta as calças de fato de treino. Aos primeiros acordes de Dreams Never End já estou em passo de corrida, um trote ligeiro para averiguar lesões antigas. A música dá-me um certo ânimo e começo a acelerar em direcção à sede da Caixa Geral de Depósitos. Ânimo, de änima, em português porque no estado de atleta sinto-me mais com estamina. A música está a andar e não há possibilidade de voltar a casa se bem que é o que mais me apetece agora que contorno o edifício de pedra quase branca pela esquerda já a pedalar pela Avenida João XXI acima. Olho para o relógio e vejo que estou a 175 rotações, pobre coração. Em breve estarei a descer e só esse pensamento mantém as pernas a andar. Dois tipos passam por mim e olham-me nos olhos. Estou de lentes amarelas, foda-se, é a merda de não poder correr de óculos escuros à noite. Do nariz para cima devo parecer uma puta de uma drag queen mal amanhada. Só há uma coisa a fazer, seguir em frente. O cruzamento da João XXI com a Avenida de Roma é sempre um problema. Costumo descer pelo passeio da direita e depois controlo os semáforos para decidir se sigo em frente ou se passo para o lado esquerdo e ganho espaço entre os carros para seguir em direcção ao Areeiro. Está vermelho. Aproveito que os carros que descem também estão parados e passo para o outro lado, mas a fila da perpendicular é interminável e tenho de continuar pela Avenida de Roma em direcção ao Júlio de Matos. Por fim aproveito uma brecha e faço um pequeno sprint até ao passeio do outro lado que me levou às 178 pulsações e queimou meia dúzia de bolinhas de colesterol. Foi o cabrão do colesterol que me atirou para as ruas a horas impróprias de Inverno. Já sabe, ou deixa de fumar ou deixa de beber café ou toma estes comprimidinhos para o resto da vida. E vir de família com homens que morrem até aos cinquenta de problemas cardíacos não ajuda, sabe, são três factores de risco e tem que eliminar um. Sei, olhe, então vamos faze assim doutora, risque-me aí dessa árvore genealógica e temos o problema resolvido. Você é muito engraçado mas não pode ser, mas olhe, é assim, pode fazer exercício, ainda que eu ache que não vai escapar a uma medicação para o resto da vida. Acha, enganou-se que isto desceu para metade com um ano de correrias a inalar escapes pelas ruas e avenidas da nossa querida capital. Estou a cinquenta metros da Rotunda do Areeiro e começam a doer-me as canelas. Estou a correr há pouco mais de cinco minutos e as dores nas canelas chegaram inevitavelmente para abalarem quando tiver acabado de contornar o Técnico. Mas estou a respirar bem. Depois dos primeiros minutos em que meia dúzia de gatos entoavam música minimal a partir do esófago, sem fagotes, começo a absorver as partículas de humidade que pairam do ar à minha frente com leve fragrância a Galp, talvez Repsol. Sim, definitivamente um toque espanhol. Tiro o MP3 de dentro dos calções de aquecimento e salto músicas. Hymn. Corto a toda a velocidade pela Almirante Reis abaixo para voltar a cortar logo de seguida à direita para a Avenida Paris. Então. É então que a imagem de um miúdo mal-amanhado com a mãe que pelo aspecto pode ser avó ou mãe ou avó e mãe me apanha o cérebro desprevenido e tudo desaparece para me transportar para um canto esconso não sei onde com três bebés alinhados, um tem a cabeça ligada, parece que dormem mas não, estão mortos, e há um homem que se aproxima do bebé que tem a cabeça ligada e o beija repetidamente e a cabeça do bebé move-se a cada toque do homem mas nada mais mexe os pequeninos dedos continuam esticados das mãos esticadas dos braços ao logo daquele corpo minúsculo e lembro-me que não posso deixar de odiar os israelitas. Estou nisto quando à minha frente já tenho a igreja da Praça de Londres e sem querer levanto olhos para a cruz. Passo a avenida com dificuldade. Tenho as canelas a arder e umas mulheres olham-me de uma paragem de autocarro. Olham-me e eu não posso esconder o que me vai nos olhos. Estou quase a parar e desistir. Nas escadas da igreja costuma estar um tipo esfarrapado a quem à saída da homilia deve haver gente que evita. Procuro-o com os olhos e encontro-o semi-reclinado sobre o cotovelo a organizar sacos de plástico. Está ali mesmo às portas do Senhor mas nunca o vi dar um passo para dentro ou gritar sanctuarium que talvez de pouco lhe servisse. Fica-se pelas portas do Senhor. Onde teriam sido assassinadas aqueles três bebés. Sanctuarium. Não quero desistir mas quando entro na Avenida Manuel da Maia sinto os olhos húmidos e basta-me virar à direita e estou a dois minutos do conforto da casa. Tenho os olhos húmidos e não os posso esconder. Tenho os olhos húmidos. Quero pensar que é aquele vento que me apanha sempre ali, um vento frio que, apesar dos óculos, me ataca sempre do flanco direito enquanto varre por ali abaixo na intersecção da Avenida do México. Quero pensar que é isso mas temo que não. Temo não ser suficientemente forte para estes tempos. Suficientemente frio. Não sou cold sou cool , que mais, sou membro do jogging nocturno. O Sol está a escapar-se de vez e deixo de me mover como uma sombra. Um taxista quase me pisa o pé com a roda da frente. O cabrão deve ser daltónico porque o sinal estava verde para mim. Que idades teriam aqueles bebés? Por falar nisso, já passei a Alameda e estou a contornar o Técnico pela esquerda. Vai ser sempre a subir. Passo pelas meninas que já estão ao ataque. Também eu estou ao ataque àquela puta daquela subida que parece menos íngreme do que realmente é. Dos auscultadores entram agora os The Sound que me dão sempre pica para os últimos vinte minutos. From The Lions Mouth é um álbum brilhante. É a banda mais maltratada dos anos 80. Não admira que o Adrian Borland se tenha atirado há uns anos para debaixo de um comboio. Filha da mãe de subida. Não raras vezes chego a parar aqui por uns trinta segundos para depois retomar na descida. Pulsação a 178. Have to be strong man. Aprender a ser fodido, tipo erva daninha. Aprender a foder os outros como eles se fodem uns aos outros. Tipo erva daninha. Acabo de contornar o Técnico e já vejo o Pingo Doce. Deixaram de me doer as canelas. Agora vai ser um autêntico passeio até ao Campo Pequeno. Esqueço tudo. Estou leve. As pulsações baixaram para 155 e começo a ganhar velocidade. Já não há muitos carros por aqui. Os suburbanos estão a caminho de duas horas de caminho até casa. A cidade começa a ser minha enquanto faço um bocado da Avenida da República até à Praça do Saldanha depois de passar pela esplanada do Galeto. Atravesso a praça ao som de Silent Air. Continuo a saltar músicas: you show me that silence that hunts this troubled world. Faço a Praia da Vitória e começo a descer a 5 de Outubro sabendo que a embaixada de Israel está por ali à minha esquerda. Foda-se, passei anos a convencer-me de que era biologicamente judeu, um metro e setenta e um, um metro de nariz, família de comerciantes, às vezes um génio apesar de uma belíssima merda a maior parte do tempo, todos os meus apelidos, os apelidos da família chegada e afastada, a geografia, vinha seguramente das doze tribos, o povo de D-us. E agora - este Estado. Merda. Grande merda. Quase tropeço numa tampa de saneamento. A avenida está sem movimento e estou completamente acelerado mas procuro manter a atenção. Há dias quase fui atropelado no cruzamnento da Miguel Bombarda porque pensava que estava na João Crisóstomo que tinha acabado de passar e olhei para a esquerda à procura de carros quando a rua é de sentido único mas da direita e quase passei do jogging ao kite-surf por mãos de um tipo que devia estar atrasado para a fila da ponte. Hoje, tudo sob controle. Ainda passei por uns yuppies tardios. Tenho a pulsação a 145. À esquerda e à direita embaixadas e ministérios. Viro à direita para a Avenida Júlio Dinis e vejo no crescente do Campo Pequeno a meta dos cinco quilómetros e meio. Volto a cruzar sobre a República já em passo mais lento. Paro junto às fontes, molho a cara. Que idade teriam aqueles bebés. Povo escolhido o caralho. D-us não se engana dessa maneira.

1 Comentários:

Anonymous Renato disse...

Não acredito que tenhas corrido tanto. Nem mesmo com as New Balance calçadas!

11:08 da tarde  

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

<< Página inicial