terça-feira, fevereiro 05, 2013


Um copo de café, um copo de plástico que lhe queima os dedos, a fumegar na espiral que se levanta acima do líquido negro. Esgota os minutos com parcimónia. Senta-se nas escadas e perscruta esse lugar onde um dia assentaram raízes verdes álamos. Uma paisagem vaga através das córneas gastas, a lembrar acrílico riscado. Populus nigra. Verde, um arranha-céus verde. Ouro no Outono. É verdade que estava velho, mas nem tantos anos de arquivo alteram a sensibilidade de um agricultor. Sabia de álamos, não por si mas por almanaques de folhas amarelas que havia no escritório. Álamo, uma árvore que podia ter bela envergadura, se calhasse a esticar bem os ramos, de tronco hirto e uma copa densa. Folhas em serra. O que poucos sabem é que elas se dividem em machos e fêmeas, como os animais. Mas as flores que dá são quase nada, miudezas, a contrastar com o espírito de conquista das raízes. Não era nenhum saloio. Sabia uma ou duas coisas, aos 75 anos. Setentaecinco. Uma vida. Morrer na alameda. De preferência, mas morrer durante o caminho para a universidade também era aceitável, nunca a caminho de casa. Ou num lar, arrumado numa gaveta com cheiros a bexigas que vertem sem parar.

Os álamos. Uma torrente escurece o Sol. De Sul aproxima-se um enxame de pássaros, talvez estorninhos. Se estivesse na sua aldeia natal diria estorninhos, são estorninhos de certeza. Aqui não sabe, podem ser ou não. Sobrevoam-no a partir de Sul e escurecem por momentos as escadas onde estava sentado com um copo de plástico em que trepava um fio de borra na mão. Se estivesse na terra eram estorninhos. A estoirar nas Fontainhas. Na Rebolada. Menos nos Lameiros. Mas também na Regada, uma revoada negra a gingar nos ares, eu, um jovem eu de olhos para cima e boca aberta. Há tantos anos, mais nas Fontaínhas, onde havia uma imensa horta e a seguir a um declive, masi em baixo, se cultivavam batatas. Também gostava da Rebolada, com a árvore onde minha mãe deitava uma manta para que me sentasse sossegado. Mas nos Lameiros havia morangos e um poço à volta do qual as burras puxavam os caldeiros. Não tinha falta de nada, mesmo só. Um estorninho perdido vagabunda em volta. Quando o pássaro pousou a dois metros percebeu que ainda trazia restos de Sol nas asas. Quis esganá-lo.

1 Comentários:

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5:38 da tarde  

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