segunda-feira, janeiro 17, 2011

XILOGRAVURAS DE PIRANESI NO DIÁRIO DE CAMPANHA

Uma senhora, camponesa, confidenciava com voz pia à reporter da TSF que a Dona Maria Cavaco tinha as mãos tão fininhas, tão delicadas. E o senhor professor também. Estou nas minhas necessidades. As palavras ecoam uma a uma - uma a uma - com pureza absoluta. Imagino-a camponesa, com mãos rudes musculadas, grossas, de quem amanhou a terra uma vida inteira. Posso enganar-me, mas imagino-a camponesa. Conheço aquelas mãos, não as mãos fininhas de amanuenses, as mãos de quem lutou contra terrões secos com arados, atrás de juntas de bois. Quando era pequeno ficava horas a olhar para as mãos do meu avô, que era pequeno mas rijo, e que tinha mãos de homem. Mãos de homem. O que são as mãos do senhor professor ao lado dessas mãos do meu avô? Da minha avó. Dos meus pais ficaram-me as mãos queimadas por horas nergulhadas em lexívia, a lavar louça no café. Durante anos ignorava que nas palmas daquelas mãos se repetiam os esquiços de Piranesi, a mesma trama e a beleza dos traços, mas ali gravados à força do buril, como xilogravuras. Talvez não, talvez traços de água forte, nada a que se atrevam os senhores delicados. Como eu, também tristemente aquém.

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